10 Sep 2026
> Carlos Cunha
Furadouro ! (parte dois)
Recordar o Furadouro doutros tempos é convocar memórias como:
* a visão, ainda o sol mal se mostrava, dos pescadores e dos banheiros postarem-se na marginal, ao cimo da avenida, para avaliarem como estava o mar, seu ganha-pão;
* dos domingos com as camionetas amarelas (da Caima) a pararem lá ao fundo da avenida e do seu bojo saírem famílias com as cestas do farnel. Invariavelmente arroz de frango em tachos envoltos em papel de jornal, bolinhos e pataniscas de bacalhau. Ah! E ainda os inevitáveis ‘palhinhas de cinco “anos”;
* das sestas depois das almoçaradas, corpos estendidos sob o inclemente sol e os bem visíveis escaldões, qual tição vivo, ao final da tarde;
* das filas para a carreira de regresso, gente cansada, mas feliz de um dia de praia;
* das senhoras vindas de Ovar, de brancos uniformes, que, calcorreando o extenso areal, passando entre as filas de barracas, apregoavam “olha a bola de Berlim ! Pastéis fresquinhos!”, transportando à cabeça o baú de folha com as nem sempre acessíveis iguarias;
* do homem, de branco vestido e tez escura, gritava, tonitruante, “olhó! bolacha americana !!!”;
* das senhoras sob o toldo das barracas manobravam as agulhas de croché ou de tricot fazendo agasalhos para os filhos ou netos ou então um naperon para o móvel da entrada lá de casa;
* dos mexericos, oh!!!’s de pudor, ‘vade retro satanás!’ quando alguma banhista ousava apresentar-se na praia de biquíni;
* das intermináveis caminhadas entre a frente das barracas e a borda do mar que a miudagem fazia acartando areia molhada para fazer um castelo de areia.
* das idas até às dunas a norte ou mesmo até à mata em busca das camarinhas. Frutos silvestres que não raras vezes eram a causa de fulminantes diarreias;
* do campismo pouco convencional na mata a norte ou numa parte dos terrenos da quinta dos Colares Pinto (onde terminava a recta e começava o Furadouro); ementa recorrente: batata cozida com atum ou sardinha de conserva;
* das jogatanas de futebol na maré baixa, com o piso de areia ainda húmido, com uns paus a demarcarem as balizas e uns sulcos escavados na areia a delimitarem os limites do ‘estádio’; algumas disputas chegavam a aquecer um pouco mais quando se tratava de dérbis regionais: os de Ovar contra os de Oliveira; os de S. João da Madeira contra os de Ovar e, claro, os sempre renhidos Oliveira vs S. João;
(Continua na próxima edição)
* Colaborador