As comissões que transformaram um monte no Parque de La Salette

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Busto de Domingos da Costa e ao lado uma lápide em bronze com o nome de todos os elementos da Comissão Patriótica Oliveirense. Em baixo fotografia tirada no Parque La Salette com a Comissão Patriótica Oliveirense e alguns beneméritos. No chão: José Landureza, Fernanda de Oliveira e António César Guedes. Sentados: José Lino Pires, Joaquim Nunes da Silva, Francisco Costa, Domingos Costa, Francisco Tavares Machado, António Resende Rodrigues e Aníbal Resende. Em pé: António Pereira Costa, António Bastos Nunes, Albertino Landureza, Franklim Nunes da Silva, Bento Landureza, António Moreira Guedes, António Barbosa Tavares, António Landureza, Adelino Carvalho, Alfredo dos Santos Godinho, Armindo Landureza, José Firmino da Silva e Adelino Pereira da Costa.

> DO DINHEIRO DAS FESTAS À CONSTRUÇÃO DE UM PATRIMÓNIO COLETIVO

O Parque de La Salette não nasceu de uma única obra municipal. Foi construído durante décadas por comissões, beneméritos, subscritores e milhares de pessoas que contribuíram com dinheiro, terrenos, influência, materiais ou até mesmo trabalho. A Comissão Patriótica Oliveirense lançou o projeto. A Comissão de Melhoramentos deu-lhe continuidade e transformou-se numa instituição permanente. As festas foram, durante grande parte desse percurso, uma das principais fontes de mobilização e receita.

 

O saldo das festas mudou o destino do monte
Em 1908, um grupo de oliveirenses reuniu-se para recuperar e engrandecer as festas em honra de Nossa Senhora de La Salette. O movimento, impulsionado por Domingos José da Costa, habitualmente referido como Domingos Costa, deu origem à Comissão Patriótica Oliveirense.
A decisão mais importante tomada pelo grupo foi utilizar o saldo positivo das festas nos melhoramentos do santuário e do Monte dos Crastos. Em vez de guardar todo o dinheiro para a edição seguinte, a comissão transformou a receita da romaria no primeiro capital de uma obra paisagística e religiosa.
O modelo repetiu-se durante décadas: as festas geravam donativos, peditórios e receitas e esse dinheiro ajudava a abrir caminhos, adquirir parcelas, plantar árvores ou até construir equipamentos; o crescimento do parque atraía mais pessoas e reforçava as próprias festas.

Domingos Costa, o rosto do projeto
Domingos Costa tornou-se o principal rosto da primeira fase. A memória do seu trabalho ficou inscrita no parque através de um busto e de uma placa de bronze com os nomes dos elementos da Comissão Patriótica.
Uma fotografia conservada pelo Arquivo Municipal, datada entre 1909 e 1923, mostra Domingos Costa ao lado de Francisco Costa, Francisco Tavares Machado, António Resende Rodrigues, Aníbal Resende e muitos outros elementos da comissão e beneméritos. A descrição arquivística identifica mais de duas dezenas de pessoas, mas adverte que a imagem reúne dirigentes e apoiantes, não permitindo considerar automaticamente todos os fotografados membros formais da estrutura.
Entre as pessoas identificadas encontra-se Fernanda de Oliveira, a única mulher mencionada nominalmente na legenda do Arquivo. 

Bento Carqueja e uma rede de beneméritos
Bento Carqueja colocou o seu prestígio e capacidade de mobilização ao serviço do projeto. Figura influente do jornal O Comércio do Porto, usava os contactos que mantinha a nível nacional para captar apoios e promover infraestruturas, iniciativas culturais e projetos sociais em Oliveira de Azeméis.
As páginas do Correio de Azeméis de 1923 destacavam também Francisco Tavares Machado, António Rodrigues, Francisco Costa, Ramalho Ortigão e Sebastião Lopes da Cruz. O jornal apresentava-os como protagonistas e beneméritos do trabalho que transformara as «pedregosas escarpas» do monte num parque. A fonte não permite, porém, atribuir a todos o mesmo cargo formal dentro da comissão.

Jerónimo Monteiro da Costa desenhou o parque
A Comissão Patriótica procurou apoio técnico fora do concelho. O plano geral foi entregue a Jerónimo Monteiro da Costa, diretor dos Jardins Municipais do Porto e ligado à Real Companhia Hortícola-Agrícola Portuense.
Os trabalhos começaram oficialmente em 7 de abril de 1909. O projeto ocupava cerca de 17 hectares e aproveitava a topografia natural, com caminhos curvos, zonas de sombra, miradouros, lago e diferentes ambientes paisagísticos.
O parque não foi implantado sobre uma única propriedade previamente disponível. A comissão foi adquirindo ou recebendo terrenos na envolvente do monte. O entusiasmo popular traduziu-se em pequenos donativos, subscrições e cedências que permitiram ampliar progressivamente a área de intervenção.

Uma obra feita por acrescentos
Ao longo dos anos foram abertos caminhos, regularizados acessos, construídos sistemas de drenagem, criados o lago, a gruta e o coreto e plantadas milhares de árvores. A transformação era tão profunda que, em 1924, a imprensa já contrapunha a antiga «montanha agreste» ao novo parque «risonho e pitoresco».
A pequena capela de 1880 tornou-se insuficiente para receber os peregrinos. A construção do atual santuário começou em 1923 e prolongou-se pelas décadas seguintes. O projeto arquitetónico é atribuído a António Correia da Silva, enquanto Henrique Moreira executou a escultura da fachada e Ricardo Leone concebeu os vitrais.
É importante não confundir Henrique Moreira com o autor da imagem original levada para a primeira capela. O escultor, nascido já no final do século XIX, está documentadamente ligado à figura monumental colocada na fachada do novo templo.

De Comissão Patriótica a Comissão de Melhoramentos
A partir de 1931, a documentação arquivística passa a identificar como produtora do fundo a Comissão de Melhoramentos de La Salette. O arquivo reúne correspondência desde março desse ano, contas, projetos, atas, inscrições, seguros, documentação sobre as festas e processos de obras.
A passagem entre a Comissão Patriótica e a Comissão de Melhoramentos não deve ser apresentada como uma simples mudança pacífica de nome sem consulta das atas originais. A tradição historiográfica local descreve um processo conflituoso e marcado pela política da época. O que pode afirmar-se com segurança é que a nova estrutura ficou responsável pela continuidade das obras e pela administração do parque durante grande parte do século XX.

O escadório pago por subscrição
Uma das curiosidades mais reveladoras encontra-se no processo do escadório. Entre 1943 e 1946, a Comissão promoveu subscrições para financiar a obra, guardando correspondência, contas e registos dos contributos.
Muito antes de existir a expressão crowdfunding, La Salette avançava através de um sistema semelhante: a obra era anunciada e a população e os beneméritos contribuíam. Então, os trabalhos progrediam à medida que os recursos ficavam disponíveis.
O escadório tornou-se uma obra prolongada, executada por fases e dependente da colaboração entre Comissão, autarquias e população. Esse ritmo ajuda a explicar por que razão vários elementos de La Salette demoraram décadas a atingir a configuração atual.

A comissão organizava a festa e promovia o parque
O fundo documental inclui correspondência dedicada à propaganda das festas, contas dos festejos e documentação sobre concursos de fotografia e cinema. A Comissão não se limitava, por isso, a manter árvores e edifícios: procurava atrair visitantes e divulgar La Salette.
Essa evolução ficou inscrita no próprio nome. Entre 1984 e 1991 existem atas da ‘Comissão de Melhoramentos e Divulgação do Parque de La Salette’. A introdução da palavra ‘Divulgação’ mostra a passagem de uma lógica predominantemente construtiva para outra que procurava também promover e dinamizar o espaço.

Artur Barbosa uniu Câmara e Comissão
Artur Barbosa é uma das figuras mais importantes da segunda metade do século XX. Quando chegou à presidência da Câmara, em 1959, presidia também à Comissão de Melhoramentos.
Essa acumulação permitiu colocar La Salette no centro da política municipal. Foi Artur Barbosa quem conduziu a luta de 11 anos pela criação do feriado municipal na segunda-feira das merendas, concretizada em 1970.
O episódio mostra como a Comissão já ultrapassara a condição de entidade responsável por um jardim. Representava um símbolo concelhio, com capacidade para influenciar decisões municipais e associar oficialmente o calendário de Oliveira de Azeméis às festas.

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