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Correio de Azeméis

25 Mar 2024

Cinquenta anos...

Ana Isabel da Costa e Silva

Ana Isabel da Costa e Silva *

Fizeram-nos acreditar que a liberdade é a única forma possível de vivermos em sociedade. Fizeram-nos acreditar que a nossa liberdade termina quando a liberdade do outro começa e a isso chamava-se respeito. Fizeram-nos acreditar que os outros são válidos e todos, em conjunto, poderiam trazer o melhor deles para o mundo e, assim, o melhor para todos. 
Fizeram-nos acreditar na fórmula do progresso em que tudo o que estava a ser feito seria para o bem de todos e a pensar em todos.
Fizeram-nos acreditar que o planeta Terra era o bem maior e o nosso dever seria respeitá-lo e tratá-lo para assegurar a sua existência para as gerações futuras.
Fizeram-nos acreditar numa fórmula cujos contornos não eram estáveis, mas o objetivo era claro: melhoraria das condições de vida de todos. 
Acreditámos ou nunca acreditámos verdadeiramente?
Eu sempre acreditei e ainda acredito. 
Mas vejo tudo e todos, à minha volta, com uma desconfiança avassaladora no futuro.
De uma forma global e abstrata, o desalento que transparece das palavras anteriores parece exagerado. Mas ao olhar uma realidade concreta como, por exemplo, para a nossa cidade, verifica-se que aquilo que construímos e andámos a construir nos nossos dias não é melhor do que a cidade que nos deixaram. 
No sentido em que tudo parece encaminhar-se, teremos mais, certamente, mas nunca melhor, seguramente.
Teremos mais supermercados, mas pior atendimento. 
Teremos mais oferta, mas de qualidade inferior.
Teremos mais estradas, mas pior espaço público.
Teremos mais habitação, com uma relação cada vez mais deficitária entre o espaço público e o espaço privado. 
Teremos mais edifícios cujo objetivo é construir uma imagem moderna, mas sem espaço verdadeiramente real, para as pessoas, onde a preocupação principal deveria ser o conforto do espaço e a utilização consciente dos recursos como a energia solar e a água. 
Como nos explicou Baudrillard, a realidade deixou de existir, tendo sido substituída pela sua representação, largamente difundida pela força da imagem1.

1 Baudrillard, Jean. Simulacros e simulação. Lisboa: Relógio D’Água, 1991. 

  * Arquiteta de Oliveira de Azeméis, Ph.D., Master Architect. 
anadacostaesilva@correiodeazemeis.pt 

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