Carlos Costa Gomes*
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"A excelência profissional não nasce apenas do domínio técnico"
Vivemos numa era em que a ciência alcançou níveis impressionantes de precisão. Diagnósticos mais rápidos, terapias personalizadas, tecnologia de ponta e inteligência artificial estão a transformar profundamente o modo como tratamos a doença. No entanto, no meio deste avanço extraordinário, impõe-se uma pergunta essencial: basta saber muito para cuidar bem?
Cuidar com ciência é uma exigência inegociável. Significa basear decisões em evidência robusta, atualizar conhecimentos, aplicar protocolos validados e agir com competência técnica. A saúde não pode depender de opiniões ou improvisos. A responsabilidade profissional exige rigor, método e formação contínua. Quando a ciência é ignorada, o cuidado torna-se frágil e inseguro.
Mas a ciência, por si só, não decide tudo. Como sabemos, a ciência indica probabilidades, sugere caminhos e apresenta resultados. Contudo, cada pessoa é única. Cada situação clínica envolve valores, medos, expectativas, contextos familiares e sociais que nenhum estudo estatístico consegue captar plenamente. É aqui que a ética se torna indispensável.
Decidir com ética significa reconhecer que cada ato clínico envolve uma escolha moral. Não basta perguntar “o que é possível fazer?”; é necessário perguntar também “o que é justo fazer?” e “o que respeita verdadeiramente a dignidade desta pessoa?”. A autonomia do doente, o dever de não causar dano, a promoção do bem e a justiça equitativa na distribuição de recursos não são conceitos abstratos — são critérios concretos que orientam decisões difíceis, não apenas para o maior bem, mas, sim, para o melhor bem.
Num tempo marcado por pressão institucional, limitação de recursos e crescente tecnificação, existe o risco de reduzir o cuidado a números e indicadores de desempenho. Porém, o coração da prática em saúde continua a ser relacional. O cuidado acontece no encontro, na escuta, na empatia e na responsabilidade assumida. É, neste pressuposto de relação que a dialética entre o amor e a justiça de Paul Ricouer, assume preponderância: O amor, como ética da solicitude que acolhe a pessoa doente - na sua totalidade e individualidade - move-se, sempre, numa esfera interpessoal; a justiça (moral da igualdade e equidade) é universal e move-se na esfera institucional.
A excelência profissional não nasce apenas do domínio técnico, mas da integração entre conhecimento científico e maturidade moral. A ciência oferece instrumentos; a ética oferece sentido. A primeira amplia possibilidades; a segunda estabelece limites e prioridades.
Cuidar bem é, portanto, um exercício de equilíbrio. Exige competência científica e técnica, mas também consciência ética e moral. Exige atualização científica, mas também a sabedoria prática da prudência. Exige decisão, mas também humanização.
Num mundo cada vez mais tecnológico, talvez o maior desafio seja este: não permitir que o progresso técnico ultrapasse a nossa capacidade de discernimento ético. Porque no centro de qualquer sistema de saúde não está numa máquina, nem num protocolo. Está na pessoa. E toda a pessoa merece ser cuidada com ciência e com ética, porque a excelência do profissional de saúde deve mover-se por estes dois valores humanos e éticos – precisa aplicar o amor e a justiça porque O AMOR HUMANIZA A JUSTIÇA E A JUSTIÇA “REGULA” O AMOR.
*Presidente do Centro de Estudos de Bioética e Professor e Investigador ESSNorteCVP