4 Jun 2026
Carlos Costa Gomes*
1. Vivemos um tempo paradoxal. Nunca foi tão fácil falar e nunca foi tão difícil distinguir a verdade da mentira. Entre a acusação - calúnia irresponsável e a denúncia legítima - ergue-se hoje uma das mais delicadas fronteiras da vida de uma sociedade e da vida de uma comunidade: a fronteira moral da palavra.
2. A calúnia destrói. Usa a linguagem da acusação e o alvo é a intenção de ferir. E a verdade é que a calúnia – muitas vezes armada em denúncia tornou-se um dos mecanismos mais eficazes de degradação social e de ataque de caráter pessoal.
3. A facilidade com que hoje se difundem rumores, suspeitas e julgamentos instantâneos criou um ambiente propício à condenação sem prova e à destruição reputacional sem defesa. As redes sociais, quando estas não são feitas pelos corredores das instituições, converteram frequentemente a indignação em espetáculo, substituindo a razão pela emoção e a prudência pelo impulso.
4. É precisamente aqui que surge o imperativo moral da verdade. Dizer a verdade não significa dizer qualquer coisa. Significa falar com consciência das consequências da palavra, respeitando os factos, a dignidade humana e a obrigação de honestidade intelectual. A calúnia alimenta-se da manipulação, da má-fé e de interesses silenciosos de quem, por má conduta moral ou meios inadequados, pretende chegar a fins e objetivos disfarçados de integridade.
5. Uma pessoa moralmente madura não pode escolher o linchamento moral de outras pessoas. Isto implica que seja capaz de distinguir que a verdade moral não pode submergir em relação à mentira, pois, o problema contemporâneo não é apenas a mentira. É a erosão da confiança na própria possibilidade da verdade. Quando tudo passa a ser interpretado como mera opinião, conveniência pessoal ou estratégia individual, desaparece o terreno comum indispensável à vida da comunidade e ao bem comum, ao bem de todos
6. Por isso, defender a verdade continua a ser um ato profundamente moral. Não uma verdade absoluta imposta pela força, mas uma verdade procurada com sentido de responsabilidade comum.
7. Na calúnia existe uma linha ética decisiva: o interesse e a destruição face à intenção de servir a verdade. Essa distinção pode parecer subtil em tempos de polarização e ruído permanente, mas dela depende a saúde moral de cada homem e mulher. Porque uma comunidade ou uma instituição saudável começa a “morrer” quando já ninguém consegue distinguir quem mente de quem tem coragem para dizer a verdade.
* Presidente do Centro de Estudos de Bioética