Doença silenciosa e envergonhada

Helena Terra

Helena Terra *

Significa isolamento, passa-se, normalmente em lugares ermos e retirados, embora casos há que se passam no meio de uma multidão, cada vez mais anónima e alheada da realidade circundante. Tem nome próprio, chama-se solidão e doi, a maior parte das vezes de forma silenciosa e, não raramente, também, envergonhada.

No último ano, a operação censos sénior contabilizou 44 511 pessoas, só no continente, em situação de isolamento e solidão. O que quer dizer que cerca de 2 em cada 100 cidadãos seniores (com 65 ou mais anos), vive nesta situação e a padecer desta doença.
O cenário completo, normalmente implica más condições de habitabilidade, reformas miseráveis, de valores inferiores ao chamado IAS (Indexante dos apoios sociais) que, este ano é de 443,20 euros, em lugares ermos ou com população do mesmo tipo, doenças físicas associadas e falta ou alheamento da família. Nos últimos anos, além disso, meio fértil para os burlões e amigos do alheio fazerem das suas. E os burlados, além das perdas ainda sofrem da vergonha de terem sido vítimas de burla, furtando-se ao julgamento daqueles que os possam julgar, além de física, mentalmente incapazes.
Alguns deles sobrevivem com a ajuda de um qualquer centro social e paroquial que lhes deixa uma refeição por dia que eles “tenteiam para dar para o meio-dia e para a noite… A gente já se habituou a comer pouco!”. Nas aldeias, ainda que longínquas, mas com mais população o Café da Aldeia desempenha o importante papel de ser o “centro de dia”, no qual se encontram e conversam para não desaprender de falar. O rádio, ainda que seja a pilhas é o companheiro de todas as horas, sobretudo para os homens, sendo a TV, para os que têm, a companheira preferida das senhoras.
Choram-se filhos perdidos, uns para a vida tantas vezes longínqua e sem memória, e outros para a morte. Uma e outra com dor semelhante.
Em lugares destes, que existem muitos, há um serviço prestado pela GNR, no âmbito do policiamento de proximidade que é denominado de Programa Apoio 65, no qual militares da GNR, visitam essas pessoas, desempenhando uma missão muito mais social do que de policiamento. Em muitos casos, são o ombro que ouve as lamentações, são o abraço que não cura, mas conforta, são a mão amiga para aqueles que há já muito só têm aquela mão… São homens e mulheres que têm uma alma grande, muitíssimo mais importante que a farda que vestem. Obrigada por tanto que parece pouco!
 * Advogada

 

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