22 Jan 2026
Marcos Sousa*
Opinião Política
E eis que está quase finalizado, ou pelo menos quase finalizado, mais um processo eleitoral com o objetivo de escolher o próximo inquilino do Palácio de Belém. Mais uma vez, e como em todas as eleições, há balanços a serem feitos, nomeadamente sobre quem ganhou e quem perdeu, sendo que tal é sempre relativo. Nestas ocasiões, há vencedores que sorriem em excesso e derrotados que sorriem por não terem perdido em demasia (seja lá isso o que for). Resta apenas saber aquilo que talvez seja o mais importante e, simultaneamente, quase o mais esquecido: será que o país saiu a ganhar?
Como referi há pouco, os vencedores nem sempre são os que ganham eleições; são antes os que conseguem quebrar as expectativas e ir além do país, para lá da circunscrição do partido que os apoia. Assim sendo, não poderia deixar de destacar o que me parece evidente: apesar de não ter ganho a primeira volta e de não me parecer que tenha melhor sorte na segunda, André Ventura conseguiu derrotar todos os seus pares à direita, sendo que, para além de os derrotar, conseguiu, de alguma forma, convencê-los a não mobilizar o seu eleitorado para evitar que o homem que quer acabar com a República como a conhecemos, e que tem a narrativa que todos conhecemos, se torne Presidente da República. Para além do que referi, e sabendo que não se tratam de eleições legislativas, não deixa de ser relevante destacar que uma parte dos portugueses já normalizou um discurso que há poucos anos era marginal e que, infelizmente, já não é.
Contudo, acima dos vencedores relativos, como é André Ventura e o próprio João Cotrim de Figueiredo, que também teve um grande resultado ao alargar a sua base, o grande vencedor da noite é, sem dúvida, e por várias razões, António José Seguro.
O seu regresso à linha da frente da política parecia tempo perdido, até porque inicialmente havia dúvidas sobre se este seria o candidato que conseguiria unir o partido que o apoiava. António José Seguro venceu não por ter apresentado uma visão radicalmente nova do país, mas porque conseguiu algo que a política portuguesa tem revelado enormes dificuldades em fazer nos últimos anos: agregar eleitorados distintos em torno de uma ideia simples, inteligível e institucionalmente robusta. No fundo, Seguro conseguiu passar como um representante daquilo que, tipicamente, deve ser um Presidente da República, ao funcionar como um elemento de contenção democrática, um garante do equilíbrio e da estabilidade, e não como um amplificador das tensões sociais, culturais e políticas que atravessam o país.
Do outro lado da balança, o grande derrotado da noite é Luís Marques Mendes, por várias razões, sendo a maior o facto de ser a primeira vez que um candidato apoiado por um major party, como é o PSD, ficar fora de qualquer discussão relevante. Também os candidatos apoiados pela restante esquerda saem fragilizados deste processo, não tanto pelos números isolados que obtiveram, mas pela incapacidade coletiva de se afirmarem como alternativa credível ou como voz distintiva num debate dominado pelo medo da radicalização e pela lógica do voto útil. Ao fragmentarem-se e ao falharem na construção de uma mensagem comum minimamente audível, acabaram por reforçar, ainda que involuntariamente, a centralidade de António José Seguro enquanto ponto de convergência do eleitorado democrático.
No conjunto, esta eleição mostra um país que não virou a mesa, mas que também já não se revê totalmente no jogo político como ele está montado. Há estabilidade, sim, mas há também cansaço, desconfiança e uma sensação difusa de que as respostas continuam aquém dos problemas. O recado destas presidenciais é simples: o sistema ainda aguenta, mas já não entusiasma.
*Licenciado em Administração Pública (Menor em Ciência Poltítica)