Entre Cães e Gatos

Urb@nidades - Rui Nelson Dinis

Rui Nelson Dinis *

Há dez anos, um amigo consultor político perguntou-me quais os temas que considerava estarem a emergir na agenda política. Em vez de lhe falar de macroeconomia, tributação ou reforma da segurança social, sugeri a emergência programática do tema dos animais – um assunto que cada vez mais despertava o interesse de grandes franjas de eleitores por todo o mundo.

Este milénio trouxe uma nova forma de encarar a reação com os animais, pelo menos os domésticos. Cães e gatos assumiram papeis centrais nas famílias, expandiram-se os negócios dedicados às necessidades (e aos luxos dos animais), foram introduzidas regras e facilidades para a permanência e circulação de animais de companhia. As cidades criaram espaços próprios para cães, definiram regras para a higiene dos espaços. Um amigo, sensível e inteligente, dedicou a sua tese de doutoramento, a familiares e aos seus dois cães. Seria impossível não o compreender.

A proteção dos animais tomou dignidade política e cívica, com o surgimento de um partido dos animais (com representação parlamentar), sendo muitas leis adaptadas e o velho Código Civil português (aprovado nos anos 60 do século anterior) teve de ser adaptado para assumir uma nova natureza jurídica na relação dos animais de companhia com os seus donos e terceiros. Foram alteradas disposições estruturais do direito civil, da propriedade, das coisas, da responsabilidade, nas principais leis civil e processual. Até o regime de divórcio teve de ser alterado para prever a entrega dos animais em partilha – aquilo que se faz com “os amigos do casal”, mas que a lei não se atreve a regular. A morte de um animal de companhia é, cada vez mais, motivo de luto pessoal e social.

Quando cheguei à cidade onde agora me encontro, o motorista que me transportou para o hotel, queixou-se das novas gerações, que se dedicam mais aos seus animais do que aos seus filhos. Em vez de um filho, compram um cão. Para muitas pessoas, esta nova relação com os animais é pouco compreensível. Depois de um tempo de afirmação plena do novo estatuto dos animais na vida pessoal, familiar e social, hoje são muitos os que reagem com o que apelidam de exageros e subversão da hierarquia dos valores.

A ideia extrema da lealdade dos animais, por regra totalmente obedientes, que nada recusam nem nos atraiçoam, levam a que muitas pessoas prefiram a sua companhia e relações, do que admitem o esforço de assumir relações com outros seres humanos – repletos de falhas, discordâncias, fragilidades, inconvenientes e mudanças de espírito.

A nova cultura da marquise, trouxe os animais de companhia para dentro da sala, mas pode afastar, em alguns casos, os seus donos em relação aos vizinhos, amigos, colegas e até familiares. Há quem diga que não e defenda que, ao contrário, a nova relação com os animais proporciona momentos de conhecimento e partilha entre os seus donos, nos passeios pelos parques e espaços públicos.

Definitivamente, os animais de companhia ocupam cada vez mais os espaços das vidas e das paisagens nas cidades modernas, onde há tantos ou mais espaços de diversão e lazer, espaços comerciais, alimentação e cuidados de saúde para animais de companhia – do que aqueles que surgem para a puericultura, artigos ou serviços para bebés ou crianças.

De tudo isto, encaro esta emergência dos animais na sociedade moderna de forma positiva, por permitir um raro momento de ligação do Homem à natureza. Mas não se confunda com o verdadeiro anseio de um regresso do Homem à terra, à natureza, ao ambiente e também aos sistemas ecológicos em que os outros animais – e não apenas os animais de companhia – merecem ter condições de vida em segurança, liberdade e saúde.

Ainda bem que são muitos os que participam nesta positiva e otimista revolução das marquises, mas não esqueçamos a fragilidade da vida selvagem e da natureza em liberdade, num planeta onde o Homem tem sido um predador e tem destruído, sucessivamente, os ecossistemas e meios de vida em liberdade para mutos dos animais que partilharam a nossa existência e a nossa evolução neste frágil e finito planeta.

Fico feliz pela alegria e bem-estar do gato do meu vizinho, mas angustia-me a extinção de milhares de espécies selvagens, a redução dos terrenos e da biodiversidade, a desertificação das linhas de água e a destruição de áreas de caça e reprodução – num processo de morte, destruição e extinção a que estamos a condenar este maravilhoso planeta: a Terra!
 (comente em: dinis.ruinelson@gmail.com)

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