4 Jun 2026
Paulo Monteiro*
Vivemos uma contradição curiosa. Por um lado, nunca tivemos tanto conhecimento, tanta tecnologia e tanta capacidade de realizar tarefas rapidamente. Por outro, muitas pessoas sentem que estão a ficar menos hábeis, menos práticas e até mais dependentes.
Durante muito tempo, acreditou-se que o ser humano evoluía sempre para melhor, como se subisse uma escada contínua rumo a mais inteligência e mais controlo. Mas a verdade é mais simples: a evolução não é uma escada nem um caminho para um “resultado melhor”. É apenas adaptação ao ambiente.
No passado, a sobrevivência dependia sobretudo do corpo e da experiência direta: saber caçar, construir, orientar-se, reparar objetos, resolver problemas sem ajuda externa e memorizar informação essencial. Hoje, isso mudou. Grande parte dessas tarefas foi transferida para ferramentas e sistemas que usamos diariamente. O telemóvel lembra-nos de tudo, o GPS orienta-nos e as máquinas calculam e ajudam a decidir.
Isto não significa que ficámos menos inteligentes. Significa que a inteligência passou a funcionar de outra forma. Em vez de fazermos tudo sozinhos, passámos a operar em conjunto com a tecnologia.
Há uma ideia que ajuda a compreender isto: a nossa mente não está apenas na cabeça. Ela estende-se às ferramentas que usamos. Um mapa, um telemóvel ou um computador fazem parte, na prática, da forma como pensamos e resolvemos problemas.
No entanto, surge aqui um paradoxo importante: uma geração pode crescer altamente competente no uso de sistemas digitais e, em simultâneo, apresentar menos domínio de competências práticas que eram valorizadas em gerações anteriores como reparar objetos simples, cozinhar de forma autónoma, orientar-se sem assistência tecnológica ou resolver problemas do quotidiano sem recorrer imediatamente a uma aplicação, ou tutorial. Isto cria a sensação de “perda de habilidade”, quando, na verdade, há uma redistribuição de competências.
O resultado é que ganhámos coisas importantes: mais rapidez, mais acesso à informação e mais capacidade para realizar tarefas complexas. Mas também perdemos alguma autonomia direta em certas áreas, porque passámos a depender de sistemas externos que otimizam essas funções por nós.
Por isso, quando alguém diz “estamos a ficar menos hábeis”, a resposta não é simples. Em algumas áreas, sim, usamos menos certas capacidades antigas. Noutras, somos muito mais capazes do que qualquer geração anterior.
No fundo, não se trata de perda ou ganho absoluto, mas de mudança. A habilidade humana não desapareceu apenas mudou de forma. Hoje, ser hábil não é apenas saber fazer com as mãos ou memorizar com a cabeça. É também saber usar bem as ferramentas e os sistemas que criámos, sem perder totalmente a ligação às competências práticas que ainda sustentam a autonomia no mundo real.
* Colaborador