Carlos Costa Gomes *
1. A ética enquanto ciência que estuda e investiga o comportamento moral do ser humano é transversal a todas as atividades humanas. Tais atividades incluem, necessariamente, o desporto seja ele coletivo ou individual.
2. Atualmente, em razão da obrigatoriedade dos clubes desportivos acederam à certificação como entidade formadora, título conferido, no caso do futebol, pela Federação Portuguesa de Futebol, muitos têm sido os clubes a realizarem ações de formação, na qual a componente ética é obrigatória para almejar tal distinção.
3. Se é este o meio – obrigatório – que tem impulsionado os clubes para as preocupações éticas e valores no desporto, por si só, podemos já considerar um bom indicador para o fomento e sensibilização para os valores éticos no desporto. Ainda que seja por esta via, é de salientar e realçar a participação dos pais, dos atletas, dos treinadores e dirigentes nas ações de formação para a ética desportiva. Enquanto formador do Plano Nacional de Ética no Desporto (PNED), a experiência que retenho, quer a nível nacional, quer a nível local, é de que a mais-valia desta iniciativa tem produzido uma reflexão intensa e saudável da consciência moral dos intervenientes no processo da formação integral dos jovens.
4. A avaliação por partes dos clubes, de facto, tem sido muito inspiradora para continuar o trabalho de densificação e sensibilização dos valores desportivos; as palavras de incentivo dos pais e atletas, a sua forma participativa e ativa são sinais evidentes de que aquela hora de reflexão ética pode mudar o rumo de atitudes negativas face a situações de maior intensidade mental no exercício da tomada de decisão.
5. Na verdade, quando os pais e treinadores confrontados com necessidade de educar os filhos/atletas, todos são unânimes em concordar que a base ética dos filhos está na base moral dos pais; e a base moral do atleta está radicada na base ética do treinador. A ética, dizemos, ensina-nos a fazer a ação certa, ensina-nos a tomar a decisão reta e justa e não aquela que, eventualmente, possa ser mais agradável socialmente. Decidir com base nos valores éticos pode trazer, por vezes, riscos que não queremos assumir, mas ao assumi-los, garantimos a nossa consciência ética, ela que é o supremo juiz das nossas ações.
6. O número de ações de sensibilização e formação é já elevado. Entre janeiro de 2024 até à data, podemos afirmar que já chegamos a mais de 1750 participantes (pais, atletas, treinadores e dirigentes) de diversas modalidades (futebol, futsal, ciclismo, basquetebol, atletismo). Certo de que nem sempre agimos como gostaríamos de agir, mas sem a competência ética tendemos, quase sempre, a tomar decisões moralmente frágeis. Porque a ética não nos diz o que é proibido, mas sim a coisa certa a realizar.
*Professor de Bioética e Ética (ESSNorteCVP) e Embaixador/Formador do PNED