25 Jun 2026
> António Magalhães
No último fim-de-semana, quando a Primavera partia para nos legar um Verão que anunciam de altas temperaturas, todos os canais televisivos se apressaram a dar notícia de duas brutais tragédias vividas no seio da família, que nos ensinaram constituir a primeira célula da sociedade, onde se constrói – ou deveria construir – o nosso futuro.
Uma madrasta, talvez ferida pelo ciúme, desvia a enteada, de oito anos, do caminho para a escola, com o engodo de uma guloseima, e leva-a para o monte, conde a mata por asfixia mecânica, ou por fractura do pescoço – os exames dos técnicos esclarecerão a verdade. Morte cruel, bárbara, pelas mãos de uma mulher que também é mãe.
No dia seguinte, um pai lança-se do oitavo andar com a filha de quatro anos. As imagens levaram ao mundo o quadro sinistro do sangue que jorrava de uma criança inocente a quem o pai, desvairado, recusou o elementar direito de viver. As verdadeiras razões jamais se conhecerão, mas talvez possa haver aqui também réstias de amores feridos.
A primeira situação sugere-me algumas considerações. Quando a primeira homicida saía do tribunal, que a colocou em prisão preventiva enquanto espera julgamento, aguardava-a uma multidão, onde, naturalmente, predominavam as mulheres, que as autoridades tiveram que dominar. Estaria iminente a justiça popular, que, como sabemos, seria a mais injusta forma da Justiça a que todos temos direito. Compreende-se a indignação de todas, certamente mães também, mas fomos dos primeiros países do mundo a abolir a pena de morte, quando ela era prática corrente.
Basta pensarmos que uma sentença menos justa poderá, a qualquer tempo, ser passível de correcção. Para a morte não há reversão.
Foi então que a criminosa usou da palavra para dizer que não fez nada por sua iniciativa, mas antes por uma voz que lhe chegava de onde não sabia. Matéria que ela terá agora tempo para estudar, com vagar e pormenor, na cela residencial da prisão de Santa Cruz do Bispo, à beira-mar, no concelho de Matosinhos.
(Escrito de acordo com a anterior ortografia)
“Basta pensarmos que uma sentença menos justa poderá, a qualquer tempo, ser passível de correção. Para a morte não há reversão.”