Glória e infortúnio de  “O COMÉRCIO DO PORTO”

Opinião

> António Magalhães

O jornal “O Comércio do Porto” apareceu nas bancas, então com o nome de “O Comércio”, no dia 2 de Junho de 1854. Completam-se agora 170 anos. 
O editorial de apresentação explicava os propósitos do novo órgão de imprensa: “A Praça do Porto precisa de um jornal de Comércio, Agricultura e Indústria, onde se tratem as matérias económicas, históricas e instrutivas destes três poderosos elementos em que assenta a prosperidade das nações modernas”.
Há precisamente 100 anos, em 1924, e então já pela direcção do inesquecível Oliveirense Doutor Bento Carqueja, “O Comercio do Porto” completava setenta anos de vida e o nosso ilustre conterrâneo fez publicar, nas oficinas próprias, uma obra notável, com cerca de duzentas e cinquenta páginas, pormenorizada investigação sobre a vida do jornal, profusamente ilustrada.
Tenho o privilégio de possuir um exemplar, cuja encadernação cuidada promovi, que junta a riqueza da dedicatória, pelo punho do Doutor Bento Carqueja, a um muito respeitado oliveirense.
Abundam ali as referências à nossa terra, com pormenores simples mas desconhecidos: a acção da chamada “Escola Agrícola Conde de Sucena”, que trouxe à nossa vila de então um especialista nas artes da poda, que durante o dia 12 de Novembro de 1905 ofereceu uma aula prática aos interessados. Lê-se mais que o Dr. Manuel Pinho Rocha e Bento Landureza foram correspondentes. 
Ao encerrar a dedicatória, o Doutor Bento Carqueja escreveu: “Morrerei contente se conseguir deixar a grande obra jornalística, por mim herdada, tão pura nos seus processos, tão alevantada nas suas aspirações, tão vinculada ao bem da minha Pátria, como a recebi dos seus fundadores e como tenho procurado conservá-la – QUERIDA JOIA DE FAMÍLIA!”. 
Sabe-se que assim não aconteceu: a última edição, com o jornal já na posse de uma empresa espanhola, sairia no dia 30 de Junho de 2005. Uma ingrata lei – a da morte! – a que não escapam, nem os homens, nem as instituições. 
O Doutor Bento Carqueja faleceu a 2 de Agosto de 1935 e, por sua expressa vontade, jaz, em campa rasa, no cemitério da cidade.   
(Escrito de acordo com a anterior ortografia)

 

António Magalhães

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