Got Talent?
Helena Terra
Helena Terra *
Há um programa na TV portuguesa já com várias edições, que revela talentos nas mais diversas áreas de expressão de arte. No canto, na música, na dança, nas artes de circo, na ginástica e na magia surge gente com muita qualidade, o que demonstra que o nosso país tem inúmero talento e, além disso, revela ilustres desconhecidos com muito mais qualidade que alguns artistas consagrados do nosso panorama. Este programa faz com que tenhamos uma enorme esperança no futuro das artes em Portugal. No panorama político vivemos, provavelmente, um dos momentos de maior défice de atores políticos no nosso país. Da esquerda à direita, do poder à oposição, quer nos situemos no panorama nacional ou no panorama regional.
No governo temos pastas cujos protagonistas, praticamente inexistem e outras das quais já receamos a próxima asneira, depois de tantas e tão graves e que, há muito deveriam ter ouvido o besouro do botão vermelho. No panorama regional e numa altura de eleições autárquicas é confrangedor perceber a enorme dificuldade que os partidos têm de encontrar soluções. Esta situação emerge, por um lado, da dificuldade crescente que os partidos têm de recrutar quadros para as suas fileiras e, por outro lado, da incapacidade de mobilizar gente da dita sociedade civil para desempenhar cargos políticos.
O exercício de cargos políticos por pessoas vindas do mundo empresarial, do sector público ou do setor privado, é cada vez menos motivante. Quem tem uma carreira com sucesso, dificilmente se vai sujeitar a lógicas partidárias, nem sempre facilmente compreensíveis. Os partidos estão numa encruzilhada geracional. Os mais velhos estão de saída e, nos mais novos, nota-se grande ambição, mas poucas condições para a função. Não creio que, para a politica tenha que se nascer, mas tem que se crescer para fazer. A motivação para a participação na coisa e na causa pública são condição essencial para o exercício da atividade politica, mas a formação humanista e de cidadania são condições indispensáveis. A cultura e a liberdade de pensamento, entendida como descomprometimento, são os elementos que podem fazer a diferença entre um bom e um mau político.
As juventudes partidárias já foram excelentes academias de formação de gente com motivação para a participação cívica e política. Alguns dos seniores de que nos lembramos e outros cuja saudade do regresso vai aumentando, tiveram nas suas jotas o seu terreno de cultura e crescimento político. Hoje, as mesmas jotas são vistas, pelos nela interessados, muito mais como centros de estágio para ingresso e conquista de uma carreira politica, do que como uma boa escola de formação que já foram.
Se possível fosse, precisávamos de um Got talent para futuros políticos.
* advogada
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