5 Mar 2026
Helena Terra*
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Gosto do sítio onde nasci e do concelho que escolhi para viver. Todos, ou quase todos, sabem que falo respetivamente de Loureiro e de Oliveira de Azeméis.
Fiz a escola primária em Alumieira, depois aquilo que se chamava o ciclo preparatório fiz na Bento Carqueja. O primeiro ano no Palacete da Rua dos Bombeiros Voluntários, onde hoje existe um prédio de habitação, comércio e serviços e o segundo ano nas instalações da Rua Padre Salgueiro onde, hoje está sediada a Universidade sénior de Oliveira de Azeméis. O ensino secundário naquilo a que sempre chamámos o liceu e continuaremos a chamar – a Escola Secundária Ferreira de Castro quando esta funcionava em dois edifícios distintos. Um na rua António Alegria e o outro na Avª Dr. António José de Almeida. Só sai de cá para a Universidade de Coimbra quando ingressei no ensino superior. Na altura tinha colegas que vinham de concelhos à volta frequentar o ensino nas nossas escolas. Eramos uma vila atrativa que a 16 de maio de 1984 se tornou cidade. A nossa atratividade era gerada por múltiplos fatores. Tinha eu três anos de idade quando foi inaugurado o Cineteatro Caracas. Ao tempo uma casa de espetáculos de referência na região. Por cá passaram várias peças de teatro e de teatro de revista, imediatamente a seguir a estreia numa das duas capitais, a do país ou a do Norte. Foi sala de cinema, onde, citando a Rita Lee, não sei se “No escurinho do cinema / Chupando drops de anis /Longe de qualquer problema / Perto de um final feliz”, houve muitos finais felizes, além dos vistos na tela, mas momentos felizes terão existido para muita gente, com certeza. Mais tarde, em 1982 foi inaugurado o Cinema do Gémini, inicialmente com uma sala e, em 1989 com uma segunda. Longe de ser cinéfila, a minha cultura cinematográfica nasceu e cresceu nesta terra. Hoje não temos nenhuma sala de cinema em Oliveira de Azeméis e, as mais próximas, que existiam no centro comercial 8ª avenida em São João da Madeira, estão encerradas. Mal, mais ou menos geral, uma vez que temos, pelo menos, 5 distritos no país sem uma única sala de cinema; falo de Beja, Bragança, Guarda, Portalegre e Viana do Castelo. Bem sei que hoje os tempos são outros, a Netflix, os podcasts a Internet em geral vieram revolucionar este mercado, quer do lado da oferta, que do lado da procura. Mas, isto tem de nos impelir a preservar e desenvolver o que temos de bom e que nenhuma daquelas ferramentas substitui. Temos alguns grupos de teatro no concelho, alguns com gente com formação superior na área. Temos uma academia de música de excelente qualidade. Temos seis Bandas filarmónicas no concelho e algumas foram o alfobre onde germinaram e criaram condições de crescimento de gente que, hoje enriquece grandes orquestras por essa europa fora. Temos duas oficinas de artes várias, dança patinagem, ginástica artística e tantas outras coisas. Aproveitando uma conhecida citação bíblica: “nem só de pão vive o homem”, o ser humano tem outras necessidades. Tem necessidade de informação que liberta o pensamento, de cultura que alimenta a alma, de poesia que dá sentido à vida e revela a espiritualidade… Machado de Assis no século XIX escreveu que “é a cultura que desmascara a hipocrisia da elite e mitiga as desigualdades sociais”. Eu concordo!
* Advogada