Helena Terra *
Tal como me propus no início deste mês aqui estou, novamente, a escrever sobre mulheres de abril.
Desta vez vou escrever sobre uma pequena grande mulher. Maria de Jesus Simões Barroso, de seu nome e que adota Soares após o casamento. Nascida a 2 de maio de 1925, na Fuseta, filha de uma professora primária e de um tenente do exército e do reviralho, castigado, preso e finalmente deportado para os Açores. Pelo lado materno, era neta de avós divorciados, algo pouco vulgar ao tempo. Uma de nove irmãos, sete vivos e dois mortos ainda bebés como era vulgar à época, porque a saúde materno infantil era praticamente inexistente. Mulher pequena, esguia, sempre direita e de cabeça erguida, cuidadosa nos passos e na aparência, de voz bem modulada e colocada, porém sem afetação. Para uns era teimosa, para outros convicta e, para todos, obstinada, corajosa, compassiva. Nascida no seio de uma família da média burguesia portuguesa dos anos 40, era moderna a ponto de decidir, contra as convenções e modelos das meninas de família, que o teatro era o seu destino.
Desde muito cedo, amiga de alguns dos principais nomes das artes, da literatura em geral e da poesia em particular. Por convicção seguiu a senda do pai numa rebeldia e desalinhamento que, tempos depois, lhe decretarão ser expulsa do Teatro Nacional e interrogada pela polícia política por declamar poemas subversivos ou declamar poemas de forma subversiva.
No teatro o êxito foi instantâneo e abriu-lhe caminho para cumprir o sonho, o de fazer parte da companhia de Amélia Rey Colaço (que a recorda anos depois como “uma pequena com muita vergonha, com dificuldade em comunicar. Mas no ensaio começava a falar e era espantosa, dizia as frases com veemência!”) no Teatro Nacional, onde os encómios continuam a jorrar: “Uma ingénua dramática de indisputáveis recursos, dotada de uma grande sinceridade emotiva, limpa de truques e de um invulgar poder de persuasão, através de uma encantadora simplicidade de processos”. O seu belo e enorme talento fê-la erguer-se a grande altura e a tornar-se numa atriz de enorme estatura.
Mas, inevitavelmente, é também mulher de Mário Soares. O apodo que sempre a precede durante mais de seis décadas. O contraste físico de ambos, a fragilidade diminuta dela e a estatura formidável dele, nem por isso a menorizou. Nunca, Maria Barroso foi uma pequena mulher atrás de um grande homem. Foi sempre uma senhora, ao lado de um grande homem, que teve vida e existência própria. Foi, também ela, uma das fundadoras do partido socialista e os destinos dela e do marido acabam por andar lado a lado, também na atividade política. Foi deputada pelo PS em 1976, 1979, 1980 e 1983.
Com a eleição do marido como presidente da república, assume o estatuto de “primeira-dama” durante os dez anos da presidência Soares, de 1986 a 1996.
Autónoma e independente, desde pequena, assim se manteve sempre. Nunca foi conhecida como Maria Soares, mas como Maria Barroso. Nunca, apesar da importância e projeção do marido, perdeu a sua identidade própria.
* Advogada