4 Feb 2026
A caixa de cinco metros de profundidade, cuja tampa chegou a estar aberta, foi um dos principais alertas de segurança dados à autarquia. Ao fundo, amontoam-se os paralelos retirados da estrada
>O "pesadelo": Obras de saneamento deixam moradores sem estrada e sem… saneamento
Iniciadas na antevéspera das eleições autárquicas, as obras de infraestruturação da Travessa António Bernardo transformaram o quotidiano de cerca de duas dezenas de famílias num "cenário de motocross".
O cenário de lama e as profundas crateras na Travessa António Bernardo impedem o acesso das viaturas às garagens dos moradores.
Com as fortes chuvadas das últimas semanas, foi este cenário que Ana Matos, outra das moradoras da Travessa António Bernardo, encontrou no interior da sua casa: As areias entupiram os escoame
Após uma semana de tempestades, a lama e as crateras de 30 centímetros impedem o acesso de viaturas e colocam em risco a integridade física de idosos e crianças, levando os residentes a exigir a reposição imediata do piso, mesmo que através do regresso dos antigos paralelos pagos pelos próprios moradores… há 40 anos.
Os trabalhos, que visavam a instalação da rede de água e saneamento, pararam abruptamente quando as máquinas chegaram à entrada de um terreno privado ("o monte"), deixando a ligação à rede de baixo por concluir.
Miguel Santos, um dos moradores que tem dado voz à contestação, explica que "todo o trabalho que foi feito até agora ainda não deu fruto nenhum", servindo apenas para deixar a estrada num "estado lastimável" e sem que o saneamento esteja operacional. A situação agrava-se com a chuva, pois as terras entopem as novas caixas que, sem ligação a lado nenhum, fazem com que as águas fluviais transbordem para dentro das habitações.
Promessas "lavadas" pela chuva
A revolta dos moradores atingiu o auge na Reunião de Câmara de 21 de janeiro, onde uma comissão de moradores expôs os problemas de acessibilidade e segurança.
Em resposta, a autarquia enviou uma equipa no dia 23 de janeiro para espalhar material provisório ("tout-venant") na via. Contudo, a solução foi de curta duração. "O material já foi todo, o que eles meteram já saiu tudo e neste momento a estrada está nas piores condições que alguma vez teve", lamenta Miguel, corroborado por Amadeu, que descreve a situação como "lamentável" e um perigo para os carros e para a saúde das pessoas.
A Azeméis TV esteve no local e, rápida e espontaneamente, os moradores reuniram-se em torno da nossa reportagem para fazerem ouvir a sua voz
Ficamos sem estrada e sem saneamento
"Realizaram os trabalhos durante um mês, só que depois não acabaram a obra. Ficou a estrada neste estado e não fizeram a ligação. Conclusão: ficamos sem a estrada em condições e sem saneamento. Falta acabar o trabalho e ligar à rede de baixo, mas as máquinas pararam ali no terreno do monte. A reivindicação prioritária agora é resolver esta situação dos acessos, que está num estado lastimável."
Nuno Cardoso
Vários danos em várias casas
"Tive danos na soleira e no muro e a empresa mandou fazer uma soleira nova e entregou-ma. Mas isto não é só assim que se resolve. Eu vou ter que contratar alguém para assentar a soleira e pintar o que foi estragado. Houve vários danos em várias casas. Se eu fosse influente aqui no município, isto se calhar já estava resolvido, mas precisamos é de condições para as nossas casas, é a única coisa que pedimos."
Miguel Santos
Um drama diário
"É lama, é covas, dá cabo dos carros e dá cabo da coluna às pessoas. Está lamentável. Ninguém faz nada. Vieram e puseram um bocadinho de areia, mas a chuva já levou tudo nestas últimas semanas. Estamos nisto há quatro meses, desde o início de outubro. O remédio era fazerem uma intervenção com o material que tiraram, e depois as pessoas podiam andar normalmente. É um drama que vivemos aqui diariamente."
Amadeu Cunha
Um retrocesso
"Estamos privados dos nossos direitos básicos e do acesso confortável às nossas casas. A câmara diz que agora não pode, que tem de assentar a terra. Se nos fizessem ao menos os paralelos que tínhamos antes, tínhamos acesso a casa. É um retrocesso; em vez de avançarmos, estamos a retroceder. Longe de nós parece que somos deixados para segundo plano porque há outras zonas da cidade que já têm tudo."
Catarina Cunha
É repor o piso
"Quem meteu o paralelo aqui foi o empreiteiro Vitorino Pardal, a câmara não meteu um cêntimo. A gente deu mil escudos cada um para meter aqui a luz também. Só na minha rua é que não tem luz no final. Se não têm condições para acabar a obra, que metam o piso conforme estava e pronto. Isto aqui é um motocross, daqui a pouco só de mota é que se anda aqui. É uma vergonha o que estão a fazer à gente."
Delfim Cardoso
Piso original pago pelos moradores há décadas
Um dos pontos mais sensíveis para a comunidade é o facto de o pavimento original de paralelos, retirado para a obra, ter sido pago integralmente pelos residentes há décadas. Delfim Cardoso recorda que a câmara "nem um cêntimo meteu" na altura e que até os postes de luz foram financiados pelos vizinhos.
Agora, perante a impossibilidade de alcatroar com o mau tempo, os moradores sugerem a reposição dos paralelos como solução funcional. "Atiraram-nos areia para os olhos a dizer que íamos ter saneamento", desabafa uma moradora, sublinhando que continuam a pagar fossas e faturas de água elevadas enquanto vivem "entregues como se fossem lixo" .
>Autarquia justifica atrasos
Mau tempo e impasse com proprietário impedem conclusão do saneamento
Miguel Santos tem sido o principal porta-voz das queixas da Travessa António Bernardo, tendo levado o assunto à reunião de câmara pela primeira vez de forma individual. Perante a falta de soluções, liderou um grupo de moradores que compareceu à última reunião pública, realizada no passado dia 21 de janeiro.
A câmara municipal de Oliveira de Azeméis justifica a paragem dos trabalhos e o estado degradado da Travessa António Bernardo com uma combinação de fatores meteorológicos e burocráticos. Segundo o vereador Hélder Simões, responsável pela obra, a conclusão da rede de saneamento depende de uma travessia por um terreno privado (conhecido como "o monte") para ligar à rua de baixo.
A autorização do proprietário para a intervenção foi "tardia", e desde que o acordo foi alcançado, em finais de novembro, as condições climatéricas têm impedido a realização dos trabalhos por gravidade.
Por sua vez, o presidente da câmara, Joaquim Jorge, sublinha que qualquer intervenção provisória no pavimento durante o inverno é ineficaz, afirmando que "tudo o que se meter lá, desaparece" com a intensidade da chuva. O autarca explicou que a decisão final sobre o pavimento — se será feita uma base nova para asfalto ou se se recuperará o paralelo — apenas poderá ser tomada com o tempo seco. Entretanto, a autarquia assegura que o empreiteiro tem ordens para retomar os trabalhos logo que as condições o permitam e prometeu o envio de técnicos ao local para avaliar os danos reportados nas habitações.