Moradores da Travessa António Bernardo denunciam abandono

Concelho

A caixa de cinco metros de profundidade, cuja tampa chegou a estar aberta, foi um dos principais alertas de segurança dados à autarquia. Ao fundo, amontoam-se os paralelos retirados da estrada

>O "pesadelo": Obras de saneamento deixam moradores sem estrada e sem… saneamento

Iniciadas na antevéspera das eleições autárquicas, as obras de infraestruturação da Travessa António Bernardo transformaram o quotidiano de cerca de duas dezenas de famílias num "cenário de motocross".

Após uma semana de tempestades, a lama e as crateras de 30 centímetros impedem o acesso de viaturas e colocam em risco a integridade física de idosos e crianças, levando os residentes a exigir a reposição imediata do piso, mesmo que através do regresso dos antigos paralelos pagos pelos próprios moradores… há 40 anos.
Os trabalhos, que visavam a instalação da rede de água e saneamento, pararam abruptamente quando as máquinas chegaram à entrada de um terreno privado ("o monte"), deixando a ligação à rede de baixo por concluir. 
Miguel Santos, um dos moradores que tem dado voz à contestação, explica que "todo o trabalho que foi feito até agora ainda não deu fruto nenhum", servindo apenas para deixar a estrada num "estado lastimável" e sem que o saneamento esteja operacional. A situação agrava-se com a chuva, pois as terras entopem as novas caixas que, sem ligação a lado nenhum, fazem com que as águas fluviais transbordem para dentro das habitações.

Promessas "lavadas" pela chuva 
A revolta dos moradores atingiu o auge na Reunião de Câmara de 21 de janeiro, onde uma comissão de moradores expôs os problemas de acessibilidade e segurança. 
Em resposta, a autarquia enviou uma equipa no dia 23 de janeiro para espalhar material provisório ("tout-venant") na via. Contudo, a solução foi de curta duração. "O material já foi todo, o que eles meteram já saiu tudo e neste momento a estrada está nas piores condições que alguma vez teve", lamenta Miguel, corroborado por Amadeu, que descreve a situação como "lamentável" e um perigo para os carros e para a saúde das pessoas.
A Azeméis TV esteve no local e, rápida e espontaneamente, os moradores reuniram-se em torno da nossa reportagem para fazerem ouvir a sua voz

 

Ficamos sem estrada e sem saneamento

"Realizaram os trabalhos durante um mês, só que depois não acabaram a obra. Ficou a estrada neste estado e não fizeram a ligação. Conclusão: ficamos sem a estrada em condições e sem saneamento. Falta acabar o trabalho e ligar à rede de baixo, mas as máquinas pararam ali no terreno do monte. A reivindicação prioritária agora é resolver esta situação dos acessos, que está num estado lastimável."
Nuno Cardoso

 

Vários danos em várias casas

"Tive danos na soleira e no muro e a empresa mandou fazer uma soleira nova e entregou-ma. Mas isto não é só assim que se resolve. Eu vou ter que contratar alguém para assentar a soleira e pintar o que foi estragado. Houve vários danos em várias casas. Se eu fosse influente aqui no município, isto se calhar já estava resolvido, mas precisamos é de condições para as nossas casas, é a única coisa que pedimos." 
Miguel Santos

 

Um drama diário

"É lama, é covas, dá cabo dos carros e dá cabo da coluna às pessoas. Está lamentável. Ninguém faz nada. Vieram e puseram um bocadinho de areia, mas a chuva já levou tudo nestas últimas semanas. Estamos nisto há quatro meses, desde o início de outubro. O remédio era fazerem uma intervenção com o material que tiraram, e depois as pessoas podiam andar normalmente. É um drama que vivemos aqui diariamente."
Amadeu Cunha

 

Um retrocesso

"Estamos privados dos nossos direitos básicos e do acesso confortável às nossas casas. A câmara diz que agora não pode, que tem de assentar a terra. Se nos fizessem ao menos os paralelos que tínhamos antes, tínhamos acesso a casa. É um retrocesso; em vez de avançarmos, estamos a retroceder. Longe de nós parece que somos deixados para segundo plano porque há outras zonas da cidade que já têm tudo."
Catarina Cunha

 

É repor o piso

"Quem meteu o paralelo aqui foi o empreiteiro Vitorino Pardal, a câmara não meteu um cêntimo. A gente deu mil escudos cada um para meter aqui a luz também. Só na minha rua é que não tem luz no final. Se não têm condições para acabar a obra, que metam o piso conforme estava e pronto. Isto aqui é um motocross, daqui a pouco só de mota é que se anda aqui. É uma vergonha o que estão a fazer à gente."
Delfim Cardoso

 

Piso original pago pelos moradores há décadas
Um dos pontos mais sensíveis para a comunidade é o facto de o pavimento original de paralelos, retirado para a obra, ter sido pago integralmente pelos residentes há décadas. Delfim Cardoso recorda que a câmara "nem um cêntimo meteu" na altura e que até os postes de luz foram financiados pelos vizinhos. 
Agora, perante a impossibilidade de alcatroar com o mau tempo, os moradores sugerem a reposição dos paralelos como solução funcional. "Atiraram-nos areia para os olhos a dizer que íamos ter saneamento", desabafa uma moradora, sublinhando que continuam a pagar fossas e faturas de água elevadas enquanto vivem "entregues como se fossem lixo" .

 

>Autarquia justifica atrasos
Mau tempo e impasse com proprietário impedem conclusão do saneamento
Miguel Santos tem sido o principal porta-voz das queixas da Travessa António Bernardo, tendo levado o assunto à reunião de câmara pela primeira vez de forma individual. Perante a falta de soluções, liderou um grupo de moradores que compareceu à última reunião pública, realizada no passado dia 21 de janeiro.
A câmara municipal de Oliveira de Azeméis justifica a paragem dos trabalhos e o estado degradado da Travessa António Bernardo com uma combinação de fatores meteorológicos e burocráticos. Segundo o vereador Hélder Simões, responsável pela obra, a conclusão da rede de saneamento depende de uma travessia por um terreno privado (conhecido como "o monte") para ligar à rua de baixo. 
A autorização do proprietário para a intervenção foi "tardia", e desde que o acordo foi alcançado, em finais de novembro, as condições climatéricas têm impedido a realização dos trabalhos por gravidade.
Por sua vez, o presidente da câmara, Joaquim Jorge, sublinha que qualquer intervenção provisória no pavimento durante o inverno é ineficaz, afirmando que "tudo o que se meter lá, desaparece" com a intensidade da chuva. O autarca explicou que a decisão final sobre o pavimento — se será feita uma base nova para asfalto ou se se recuperará o paralelo — apenas poderá ser tomada com o tempo seco. Entretanto, a autarquia assegura que o empreiteiro tem ordens para retomar os trabalhos logo que as condições o permitam e prometeu o envio de técnicos ao local para avaliar os danos reportados nas habitações.
 

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