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Correio de Azeméis

8 Apr 2024

Mulheres de Abril…

Helena Terra

> Helena Terra

Se bem se recordam, no artigo da passada semana, referi que em todos os que escrevesse neste mês para publicar aqui, falaria sobre as mulheres de abril. São, pois, mulheres de abril que aqui trago.
Chamava-se Celeste Caeiro, tinha 40 anos, era empregada de mesa no restaurante Franjinhas, na rua Braancamp, junto ao Marquês de Pombal, que tinha aberto portas pela primeira vez no dia 25 de Abril de 1973. No dia 25 de Abril de 74 o restaurante comemorava o seu primeiro aniversário e, por isso, tinham sido comprados molhos de cravos para oferecer aos clientes. Era quinta-feira e seria um dia de trabalho como outro qualquer. Celeste, cumprindo as ordens dadas na véspera pelo patrão, foi comprar os cravos antes de chegar ao restaurante, mas nem sequer chegou a entrar porque, aí chegada, a porta estava fechada. Estranhou e bateu à porta. Entreaberta pelo patrão, este mandou-a para casa, pois estava em marcha uma revolução, dizendo-lhe que podia levar as flores para casa para que não murchassem.
Celeste Caeiro, cumprindo o que lhe fora dito, com o molho de cravos nos braços pôs-se a caminho de casa, no Chiado onde morava. Não era longa a viagem. Desceu no Rossio e caminhava para o Chiado. Na rua do Carmo, cruzou-se com um grupo de soldados em cima de um tanque e um deles pediu-lhe um cigarro, mas Celeste Caeiro não tinha, porque não fumava. A única coisa que lhe poderia oferecer era um dos cravos do ramo que carregava… O soldado aceitou a oferta e colocou esse cravo no cano da sua espingarda.
Eis, pois, que os outros soldados que seguiam no tanque replicaram aquele gesto e, acabados os cravos da Celeste, horas mais tarde, as floristas da Baixa empenhavam-se na tarefa de distribuir cravos por todos os soldados.
Soldados fardados a rigor carregando cada um a sua arma, silenciaram-nas com um cravo vermelho que delas despontava, como se ali tivesse sido plantado e tivesse crescido.
O projeto da revolução previa o não derramamento de sangue. E, por um acaso, o vermelho triste do sangue, foi substituído pelo vermelho vivo dos cravos que significavam vida, uma vida que nessa manhã começaria a florir.
Dir-se-á que um conjunto de acasos se conjugaram por forma a que uma revolução não fosse feita de tiros e de armas, mas de cravos. Cravos que deram cor ao conjunto cinzentos das fardas dos militares e alegravam a manhã que havia nascido cinzenta e nublada.
Celeste Caeiro, na sua simplicidade, estava longe de imaginar o alcance do gesto por ela encetado e continuado pelas floristas da baixa. Cravos que foram dados com coração e que se tornaram o símbolo da revolução. Assim ao romper do dia, escrito por Sophia, uma mulher de abril: “Esta é a madrugada que eu esperava /O dia inicial inteiro e limpo / Onde emergimos da noite e do silêncio / E livres habitamos a substância do tempo… E assim, a palavra e a canção, também são uma arma.
 
Helena Terra,  Advogada

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