> Ricardo Bastos
Vivemos de facto tempos muito estranhos, agitados, esquisitos, até.
Fazemos meditação, ginásio, corrida e quantas vezes até orações, tudo tendo em vista uma vida saudável e equilibrada. Depois, num ápice, destruímos tudo. É o trânsito, é o trabalho, são as faltas de paciência para com os erros dos outros, como se nós mesmos não fossemos os outros dos outros.
Há dias saí de um funeral e logo de seguida levei uma valente buzinadela porque estava a ser demasiado lento na manobra que estava a fazer. O senhor estava carregadinho de razão, pois eu estava completamente sem noção de que não estou sozinho no mundo. Mas também ainda estava no registo de quem tinha acabado de sair de um sítio onde facilmente constatamos que tudo se acaba num ápice, sem pré-aviso ou outro tipo de sinal.
Ainda não refeito da justa buzinadela, eis que numa rua apertada dei passagem a alguém que mal se colocou à minha frente fez algo que me tem feito pensar. Pensar o quanto a estrada pode ser um sítio maravilhoso para se viver, já que tantas horas lá todos passamos.
O condutor do outro carro ligou os quatro piscas que assim se mantiveram uns três ou quatro segundos. Entendi aquilo como um agradecimento. Desde então comecei a replicar esse gesto. Sempre que alguém me faz uma gentileza no trânsito eu respondo com o agradecimento dos quatro piscas por alguns segundos.
Como ando atento, reparo agora que afinal há já muita gente a ter esta prática.
Gosto, acho bonito e simpático. Cedo passagem muitas vezes só para ver se tenho direito a um piscar de piscas, ou piscar de olhos electrónico do outro condutor.
Não é sinal de perigo, é mesmo sinal de agradecimento, é sinal de equilíbrio e gratidão pelo gesto do outro. Gosto de gente simpática e agradecida e entre condutores pode ser um belo gesto de cidadania, pois arrancar um sorriso pode ser um ato de profunda generosidade.
Que não nos fartemos de piscar, não em sinal de perigo ou socorro, mas de uma nova linguagem de quem é grato e o demonstra.
Ricardo Bastos, Organizador das ‘Corridas Solidárias’