‘O Entrudo vai à mesa’ celebrou tradição

S. Roque Freguesias

O mestre Lindolfo Ribeiro antecipou as surpresas da noite no início do jantar

S. Roque > Confraria das Papas de São Miguel

A Confraria das Papas de São Miguel promoveu o evento “O Entrudo vai à mesa”, na sua sede, reunindo dezenas de participantes numa noite dedicada à gastronomia tradicional e à valorização da etnografia local.

A iniciativa destacou as papas de São Miguel enquanto prato identitário de Oliveira de Azeméis, associando a componente gastronómica à recriação de costumes, saberes e expressões culturais ligadas ao ciclo rural e ao período do Entrudo.
Ao longo da sessão, o mestre Lindolfo Ribeiro sublinhou a importância de preservar não apenas a receita, mas todo o contexto histórico, social e cultural que lhe está associado. A confeção ao lume, o recurso a utensílios tradicionais e a utilização de ingredientes sazonais foram alguns dos aspetos destacados como essenciais para manter a autenticidade do prato.
A iniciativa procurou ainda criar um espaço de convívio e partilha, aproximando os participantes das vivências de outros tempos, onde a alimentação estava profundamente ligada ao calendário agrícola, às colheitas e às tradições comunitárias.

 

“Esta noite do ‘Entrudo vai à mesa’ é muito especial para nós, porque é quando a casa se enche e sentimos que a confraria está viva. Ter a lotação praticamente esgotada mostra que a gastronomia tradicional continua a criar interesse e momentos de convívio à volta da mesa.” 

“A nossa sede era uma antiga escola primária que foi adaptada para aquilo que hoje somos. Criámos aqui cozinhas demonstrativas e espaços de convívio pensados para trabalhar a gastronomia e receber quem nos visita.” 

“As papas de São Miguel são o nosso ex-líbris e representam Oliveira de Azeméis. São feitas com farinha do milho novo, feijão da colheita, nabiças e ossos da suã, tudo preparado como se fazia antigamente. Tudo o que é servido aqui é confecionado no local. As papas são feitas ao lume, em panelas de ferro de três pernas, o fumeiro é preparado por nós. Não há atalhos, há respeito absoluto pela forma tradicional.”

“A confraria nasceu por vontade de D. Isabel Calejo, com o objetivo de preservar o uso e o costume das papas de São Miguel. Esse legado continua a orientar o nosso trabalho.” 

“Não preservamos apenas a gastronomia, preservamos também a etnografia. Recolhemos cantigas antigas, diálogos de feira, falas das peixeiras e das labradeiras, que hoje recriamos como parte cultural destas iniciativas.” 

"A gastronomia, a etnografia e os costumes juntos constroem a identidade de um território. Estes momentos devem ser vistos como património cultural e valorizados enquanto expressão viva da nossa memória coletiva.”


“Sempre que abrimos a casa para este tipo de iniciativas, sentimos uma grande adesão. Há quem venha pela primeira vez e quem regresse, o que nos dá a certeza de que este trabalho faz sentido.” 

“O Entrudo está ligado ao ciclo da terra, à abundância e à partilha. Faz todo o sentido que seja assinalado à mesa, com pratos que nascem do trabalho agrícola e da tradição popular.” 
Mestre Lindolfo Ribeiro

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