O Hábito não Faz o Monge

Opinião

> Henrique Sá Couto

Lisboa, anos sessenta!
Avenida da Liberdade, à porta do stand da Mercedes junto aos Restauradores.
O envelhecido senhor  - sim, um senhor mas de sobretudo azul escuro -, com pele amarela pela doença, mãos deformadas pela doença gotosa, passaria com um olhar apressado por um humilde ancião. Um pedinte, quem sabe?!. 
Com o nariz encostado ao vidro da grande vitrine da C. Santos, espreita lá para dentro, mão ‘em pala’ sobre a testa. 
Lá dentro um Mercedes 190 Coupé preto e cinzento novinho em folha, de capota rígida, estava  em  exposição. Espera por um comprador abonado! 
À porta do stand, um vendedor de automóveis. Sim, um vendedor de automóveis, ‘tout court’ ! 
Com as mãos nos bolsos, olha desinteressado para aquele humilde ancião e, irónico, diz -lhe: 
- “Lindo não é? Pois, mas é para quem pode”, e faz o gesto de esfregar o dedo polegar no indicador: sinal do dinheiro.
O senhor, sem pronunciar palavra, sobe o degrau e entra. Olha e volta a olhar, abeirando-se do maravilhoso automóvel.
Certamente terá perguntado o preço ao desconfiado empregado e disse:
- “Mande-me dois lá a casa”. Forneceu-lhe a morada uma nobre quinta ali para os lados do Lumiar. Sei onde é .
O empregado ia desfalecendo, talvez numa visão rápida antevendo o seu despedimento..! 
Chaves para o enigma:
- História veridica: o senhor de aspeto modesto e doente era o grande cirurgião professor catedrático Virgílio de Morais, da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, mãos deformadas (dores terríveis teria)com ‘tofost da Gota (ácido úrico), casado com uma linda e distinta senhora, a D. Margarida de Morais, presidente do MNF.
Quanto aos Mercedes, ainda hoje o estou a ver a entrar conduzindo um, rolando devagar pelo Jardim do Hospital de Santa Maria, sempre pontual. 
Era o meu diretor que mal me via quando nos cruzávamos na Enfermaria. Parecia frio e distante, com voz gutural, parco em palavras...
Eu era um jovem Interno prestes a ir para o Ultramar.. Fui despedir-me dele uma manhã. Surpresa minha, mostrou-se meigo, quase - diria - afável. 
Mandou me sentar. Perguntou  pela minha vida, leu e assinou o meu relatório. Quando saí, despediu-se de mim com afeto e simpatia. 
Apesar da doença o transfomar por fora - o que sofreria - manteve sempre um bom coração. 

 
Henrique Sá Couto, Médico Cirurgião Pediátrico

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