20 May 2024
> Ana Isabel da Costa e Silva
Pedro Abrunhosa, no podcast “É preciso ter calma”, conversa com Carlos Moedas. E uma das perguntas iniciais que Pedro Abrunhosa faz a Carlos Moedas é: porque é que não fomos capazes de erradicar a pobreza?
Ao longo de uma série de argumentos trocados, nomeadamente acerca do desenvolvimento acelerado dos extremos políticos, que ocorrem, atualmente, na nossa sociedade e na sociedade europeia, Carlos Moedas aponta o descrédito das pessoas no político como o grande problema contemporâneo. Segundo ele, a burocracia crescente encaminhou os políticos para uma postura de não decisão, porque tomar uma decisão tornou-se perigoso para o político. Carlos Moedas refere que hoje temos políticos com medo.
A certa altura, Pedro Abrunhosa comenta que o emaranhado de burocracia legitima um poder autocrático, ou seja, a sociedade fica com a ideia de que é necessário um líder forte, a sociedade fica com a sensação que se precisa de alguém que dê a ideia que consiga impor e alguém que crie a sensação que consiga decidir, para se tomarem, finalmente, decisões nas mais diversas esferas da ação política.
E este é um caminho perigoso porque, por um lado, alguns políticos chegam ao poder e tornam-se fechados (ou já eram), desenvolvendo uma ideia muito própria sobre as ações necessárias a tomar, sem capacidade de ouvir e sentir a vontade das pessoas. Por outro lado, corremos o risco de eleger políticos populistas que, ao vender a tão almejada ideia de mudança e destruição do sistema, podem arrasar o que de mais precioso temos na nossa sociedade: a democracia.
O que acontece com este tipo de posturas, com o objetivo de mostrar trabalho à sociedade, é a tendência em valorizar os grandes movimentos e as grandes funções urbanas, esquecendo a escala temporal e geográfica da vida quotidiana1. Mas os grandes movimentos e as grandes funções urbanas, em vez de tornarem a cidade mais competitiva e valorizada, tendem a criar desigualdades, constroem fronteiras e fragmentos, potenciam situações de conflito. Considera-se que não conseguem, por si, construir coesão espacial e social.
Mas o maior problema é, ao olharem para as grandes ações na cidade, esquecerem a vida diária das pessoas, nomeadamente os ‘pequenos problemas’ do espaço público que tanta importância têm na vida das pessoas, para o desenvolvimento diário da sua vida quotidiana.
E temos vários na nossa cidade...deixo-vos, esta semana, com um exemplo:
O que mudou na nossa Avenida, a Avenida António José de Almeida, em cinquenta anos? E o que mudou nos últimos anos? Há quanto tempo não se trata o espaço público naquela Avenida? E as árvores? E o estacionamento? E a opção das duas vias com o mesmo sentido fará sentido?
1GUERRA, Isabel. “Tensões do Urbanismo Quotidiano”, in Políticas Urbanas. Tendências, estratégias e oportunidades. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2003.
Ana Isabel da Costa e Silva, Arquiteta de Oliveira de Azeméis, Ph.D., Master Architect.
anadacostaesilva@correiodeazemeis.pt
Maria Castro Alves 21-05-2024 ás 13:39h
É mesmo isso...! Palavras sábias. Obrigada pela partilha