O tempo do Parque

Ana Isabel da Costa e Silva

> Ana Isabel da Costa e Silva

Antes de ser parque, miradouro, espaço de recreio ou palco da grande festa de agosto, La-Salette é um lugar religioso. Foi a devoção que levou a população ao Monte Crasto e que determinou que ali, no alto do monte, se construísse uma capela.

A história começa no verão de 1870, período em que uma seca severa se fazia sentir por todo o país. A 5 de julho, devido à falta de água e às graves consequências para a agricultura, organizou-se uma procissão que levou a população desde a Igreja Matriz até ao Monte Crasto, pedindo chuva. Segundo a história que se conta há gerações, quando chegaram ao cimo do monte, começou a chover. O abade João José Correia dos Santos, entendendo o acontecimento como uma resposta às preces da população, propôs a construção, no Monte Crasto, de uma capela dedicada a Nossa Senhora de La-Salette.

A primeira capela ficou concluída em 1880. A 7 de abril de 1909, iniciaram-se os trabalhos de construção do parque que circundava a capela. O plano geral, com cerca de 17 hectares, foi desenhado por Jerónimo Monteiro da Costa, então diretor dos Jardins Municipais do Porto. O monte, descrito nos registos municipais como árido e inóspito, foi progressivamente transformado através da plantação de árvores, da abertura de caminhos e da criação de espaços de descanso.

O Parque encontra-se sobranceiro à cidade. Apesar da relativa proximidade do centro, a mudança de cota, a presença das árvores e de vegetação diversa, a sucessão, a orientação e remate dos percursos, bem como a possibilidade de observar, a partir do alto, a cidade e o território até ao mar, criam um espaço único na cidade e na região.

Ao longo de mais de um século, a vegetação cresceu e amadureceu, os caminhos consolidaram-se e foram sendo construídos alguns equipamentos que garantiram maior conforto à população. O Parque é uma construção em permanente transformação. Com a chegada de cada estação do ano, o Parque altera-se, embora a estrutura e o sentido do seu desenho inicial se mantenham.

Todos os anos, no primeiro domingo do mês de agosto, a Festa em honra de Nossa Senhora de La-Salette altera profundamente a condição natural do Parque. Centenas de pessoas acompanham a descida da imagem de Nossa Senhora, na Procissão das Velas, até à Igreja Matriz. Uma semana depois, a Procissão do Triunfo faz o percurso inverso. Entre os dois momentos religiosos mais participados, o Parque recebe a festa, caracterizada pelas diversões e pelos encontros e pontuada por concertos com artistas de relevância nacional. Durante a semana da festa, o centro da vida social de Oliveira de Azeméis passa a estar no Parque.

Mas o Parque não pode ser o centro de tudo. É um organismo vivo, físico e arquitetónico, cujos solos, vegetação, percursos e construções ficam, nesta altura, sujeitos a uma utilização intensiva. Por isso, precisam de manutenção e de tempo para recuperar.
O Parque deve acolher a sua grande festa, em honra de Nossa Senhora de La-Salette. Mas deve também ser um lugar de silêncio, de passeio e de contemplação da Natureza. Preservá-lo é garantir que as gerações futuras possam continuar a celebrar, naquele monte, o que hoje celebramos.

* Arquiteta e Docente universitária

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