26 Mar 2026
Helena Terra*
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No passado sábado fui a uma festa de aniversário. Um convite honroso que chegou tempos antes de um amigo que completava o seu septuagésimo aniversário. Um homem da Beira alta que há cinquenta e poucos anos foi estudar para Coimbra e aí, como tantos outros e outras, a vida, ou a vivência alargou-lhe as vistas, e fê-lo avistar novos horizontes e querer conquistar outros tantos. Anos mais tarde, o coração levou-o para Beja e, como o próprio diz, “hoje não é alentejano, mas é pai deles”.
Foram mais de quatrocentos quilómetros para lá e outros tantos para cá. Estes no que a mim tocou, porque houve quem tivesse feito mais. Cedo se percebeu que era uma comemoração onde estaria muita gente e que seria uma oportunidade de encontros, reencontros, de avivar memórias, recordar histórias, de duvidar que o tipo de cabelos brancos e aspeto calmo e sereno era o barbudo, cabeludo e mal-enjorcado, com quem tinham partilhado muitos dias e longas noites.
Alguns vinham desde os bancos da escola primária, outros da mais antiga academia de estudantes universitários do país e, outros ainda de várias encruzilhadas da vida que anacronicamente aconteceram e que neste dia de primavera se juntaram.
A primeira descoberta que dai resultou, para todos(as) foi a de que o mundo é do tamanho de uma ervilha e que, quando achamos que vamos a um sítio em que conheceremos umas duas ou três pessoas, afinal percebemos que conhecemos muitas mais e concluímos que a velha máxima que diz que os amigos dos meus amigos, meus amigos são, é um facto e não apenas um ditado popular antigo e gasto.
Personalidades muito diferentes que, quase todos com inspirações distintas, como era natural nos anos seguintes ao 25 de abril, lutavam pelo fim das desigualdades, reivindicando direitos iguais para todos, quer fossem estudantes ou classe operária, homens ou mulheres e que, alcançada que foi a liberdade, faltava cumprir a igualdade entre todos.
Foram estes antecedentes que inspiraram a mim e a outros(as) tantos como eu que, nos meados dos anos oitenta, naquela mesma academia, acreditámos que um projeto batizado como projeto “C”, seria capaz de construir uma sociedade e um futuro melhor para todos. Nesta altura alguns dos objetivos que nos moviam eram diferentes, porque a distância era a de uma geração. A questão das propinas que concretizasse a igualdade de acesso ao ensino superior era atual. A questão das precedências, unia na mesma luta todos os estudantes, numa academia onde o rigor era a palavra de ordem. O fim do serviço militar obrigatório, foi uma luta que animou aquela minha geração. A participação política, desde cedo e propósito dos mais variados órgãos eletivos que constituíam a comunidade da academia e do país da altura era a motivação dos que tinham nascido ainda no Estado novo que era velho e queriam aprofundar esse novo mundo chamado Democracia.
Encontrei amigos da geração anterior à minha e amigos da minha geração com amigos comuns em ambas.
Um dia, era uma miúda, li num livro muito antigo que o amor era mais tolerante que a amizade. Vivi anos sem perceber. A vida encarregou-se de me ensinar e hoje sei porquê. É porque o amor perdoa por compromisso de sobrevivência da relação, enquanto a amizade perdura por cumplicidade genuína.
* Advogada