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Correio de Azeméis

12 Mar 2024

Os doutos  do nosso tempo

Opinião

> Albino Pinho

Tempos houve em que formar um doutor na universidade  era um feito só ao alcance da burguesia capitalista,  minoria de famílias mais abastada, ou de alguma mais sacrificada.
E no regresso á terra, já com o canudo na mão, eram acolhidos  no centro da aldeia, engalanada para o efeito, com tarja de boas vindas,  por forte foguetório, banda de música, missa de ação de graças, e opíparo banquete,  com os familiares mais chegados, alguns amigos, forças vivas da terra, outras do concelho,  e claro o padre. Era á sombra da ramada, coberto improvisado, no quinteiro, ou terreiro encostado à casa dos pais, que se  saboreava o bom assado, preparado por experientes femininas mãos gordas lá da terra, exímias na arte do tempêro das carnes dos animais  que o pai do novo doutor foi engordando para a ocasião. Entre os barulhos naturais de tão alegre festim, sobressaía aqui e ali um côro de risos da última anedota contada. E entre histórias de vida e de lavoura  o volume da falaria geral ia em crescendo, à medida que o vinho ia descendo.  
Depois, de até o abade da terra ter cometido o pecado da gula, já se começava a pensar numa boa sesta para uma boa digestão dos excessos do dia. Sim, porque comer em demasia , e durante tanto tempo, também cansa. Mas não! Ainda faltavam os discursos bem adornados, qual concurso de eloquência ! Uns de improviso, outros preparados na véspera, e como é da praxe o do homenageado, já com trabalho garantido, e por fim, o mais curto sincero e simples, o de agradecimento dos pais babados.  Havia ainda as famílias de maiores posses, para marcar maior posição social, ou especialidade mais refinada para o boémio e mimado filhinho o enviavam, com dinheiro vivo e por vezes também criado, como o Carlos dos Maias, do nosso Eça, para  universidades  de maior nomeada  como Sarbonne, Cambridge ou Oxford.
Os tempos mudaram radicalmente, hoje já não é aquele lavrador, que quase desapareceu, que se priva de quase tudo para ter um doutor em casa. Surgiu uma nova classe média, ou novos ricos, composta por alguns médios patrões, (quais patos bravos), comerciantes, algumas famílias com melhores salários, emigrantes mais poupados, que também querem ter estatuto e dar aos filhos aquele futuro que eles não puderam ter. Hoje algumas profissões já requerem novos conhecimentos  técnicos, algumas mais exigentes, procuradas e melhor remuneradas  que alguns  cursos universitários. Ser doutor já não é sinónimo de trabalho garantido, com direito a festas na terra e vénias à moda antiga. Tirando a medicina, e pouco mais, o nosso mercado de trabalho tem excesso de doutores, alguns da mula ruça, que acabado o curso seguem o caminho da emigração, ou no imediato alguma caixa de hipermercado para ter alguns trocos enquanto esperam uma oportunidade. Saír de casa dos pais, ou constituír família fica para segundo plano. É assim a triste realidade da maioria dos doutores dos nosso tempos.


  *Assinante Correio de Azeméis

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