10 Sep 2026
> Helena Terra
Vivemos sob múltiplos aspetos numa total e aparente contradição. A natureza, as pessoas, as coisas…, já nada é como nos habituámos a que fosse. Vivemos num mundo de contrastes e paradoxos; dois substantivos que parecem sinónimos, mas não são.
No último fim de semana vivemos, ao mesmo tempo e no mesmo lugar, um cenário de calor extremo coincidente com granizo e trovoadas severas com saraivadas curtas, mas muito intensas. Viveu-se um fenómeno atmosférico extremo que provocou estragos em algumas zonas bem circunstanciadas e circunscritas do norte e centro do país.
Os meteorologistas preveem que aquilo que eram verões quentes e secos, passem a alternar, de forma agressiva, entre semanas abrasadoras, tempestades severas de granizo e frentes frias rápidas e com rajadas destrutivas. Vamos ter de nos preparar para esta nova realidade. Nas Zonas afetadas este fim de semana, vimos a destruição de telhados de habitações, coberturas de espaços de apoio à atividade agrícola e, nestas zonas onde a colheita do milho e as vindimas ainda não tinham sido feitas, a destruição substituiu a colheita.
No que às pessoas e às coisas diz respeito, a visão macroeconómica reflete que Portugal vive a duas velocidades. A subida da nossa notação financeira, em termos do rating para A+ coloca Portugal no grupo de economias altamente fiáveis ao lado, por exemplo, de países como a França e Bélgica. A economia cresceu 2,5%, impulsionada pelo investimento e exportações, o desemprego mantém-se em números relativamente baixos, mas não há ganhos salariais, uma vez que os salários não acompanham os números do crescimento económico.
Ora, se é certo que o estado apresenta indicadores de solidez macroeconómica; por sua vez, as famílias enfrentam um aperto severo no orçamento pessoal devido à perda de poder de compra. A inflação inverteu a tendência de queda e subiu para 3,3% em agosto, sob pressão das fontes de energia em geral e dos combustíveis em particular. Também a habitação e os bens alimentares continuam a subir, corroendo diretamente o poder de compra.
O endividamento das famílias continua elevado e, neste endividamento, o custo com a habitação tem um peso preponderante, e quem tem mútuos para compra de habitação com taxa variável enfrenta prestações mensais asfixiantes antevendo-se pressões de subida nas taxas de juro de mercado dado que o discurso oficial dos vários membros do BCE tem indiciado que será necessário um maior aperto da política monetária para controlar a inflação a médio prazo. Antevê-se, por isso, que da reunião do BCE agendada para 10 de setembro resulte uma subida da taxa de juro. Contrastes e paradoxos, serão o novo normal?
* Advogada
“(...) a visão macroeconómica reflte que Portugal vive a duas velocidades”