22 Jan 2026
Fanny Martins*
Opinião
O que falar dos outros diz sobre a tua Saúde Emocional?
Já reparaste que tornamos muito comum e visto como normal comentar a vida dos outros, analisar e falar sobre o comportamento do outro. Quantas conversas tens tu num dia que não inclua falar da vida de outra pessoa? Reparamos e comentamos sobre os erros, as escolhas, decisões do que não nos pertence, de forma até inconsciente e talvez por isso, com muita frequência e fluidez. Mas, e se eu te dissesse, que esse hábito diz muito sobre ti e sobre a tua saúde emocional?
Falar constantemente da vida alheia revela muitas vezes a incapacidade de fazê-lo connosco em verdade. Uma forma de não olharmos para dentro. Quando nos ocupamos com o que os outros fazem, ficamos automaticamente, durante esse tempo, dispensados de fazer acontecer a autoanálise, enfrentar o nosso silêncio, as nossas próprias dores, aquilo que está a pedir atenção em nós, ou na nossa vida. E a ciência confirma esta ideia. Estudos mostram que falar repetidamente da vida alheia funciona muitas vezes como um mecanismo de regulação emocional, uma forma de aliviar tensões internas sem lhes tocar verdadeiramente (Foster, Review of General Psychology, 2004). Há ainda evidência de que, quando o nosso mundo interno está mais confuso ou cansado, tendemos a projetar esse desconforto no comportamento dos outros, tornando-nos mais críticos ou vigilantes em relação ao que os outros fazem (Newman et al., 2015). E, por fim, estudos mais recentes indicam que esta tendência está associada a menor bem-estar e maior agitação emocional, não por maldade, mas por necessidade de regulação interna (Robbins & Kirmayer, 2019). Na minha prática terapêutica, observo muitas vezes que quanto mais fragilizados ou insatisfeitos nos sentimos, mais tendência temos para focar no que está fora, no que não nos pertence. Mas tais relatos dão pistas incríveis a qualquer terapeuta que esteja atento, pois na verdade, aquilo que mais nos incomoda no comportamento de alguém costuma ecoar algo que existe, de forma consciente ou não, dentro de nós que nos perturba. É um efeito espelho, porque na verdade só me afeta algo a que eu atribuo um significado, uma dor, um incómodo. Pode ser um medo, uma ferida antiga, uma necessidade não atendida que está a refletir. E a ti que me lês, deixo-te este desafio. Auto analisa-te durante uns dias, ou pede alguém que ames que te ajude a fazê-lo, e identifica quando dás por ti a falar de alguém ou a criticar alguém pejorativamente e até ofensivamente. O verdadeiro crescimento emocional acontece quando usamos esses momentos como espelho. Quando, em vez de gastar a nossa energia e tempo, a falar da vida alheia, nos perguntamos: “E eu? Onde é que isto toca em mim? O que é que isto me pode ensinar?” A maturidade não está mesmo em comentar ou julgar, mas na capacidade de perceber quando isso nos afasta do mais importante, que é o nosso próprio cuidado.
Por isso, deixo-te esta reflexão: Da próxima vez que identificares que estás a criticar alguém, faz uma pausa e observa-te. Talvez descubras que, no fundo, estavas a fugir de olhar para ti, porque aquele momento ou situação está a ativar algum medo, insegurança ou vontade de controlar algo que não está sob o teu controlo. Porque aquilo que mais falamos dos outros pode ser, afinal, o que mais precisamos de curar em nós.
*Terapeuta formada em Hipnose Clínica, Master em Trauma e Psicodrama para crianças, adolescentes e adultos