Santa Maria de Ul de 1900

Opinião António Magalhães

António Magalhães

Opinião > Especial Festas Nossa Senhora das Candeias e São Brás

"Tenho em mãos a "Matriz da colecta a que estão sujeitos os habitantes da freguesia de Santa Maria de Ul pela prestação de trabalho", referente ao ano de 1900"

Tenho em mãos a "Matriz da colecta a que estão sujeitos os habitantes da freguesia de Santa Maria de Ul pela prestação de trabalho", referente ao ano de 1900. Um imposto cobrado pela então Junta de Paróquia, a antecessora das nossas Juntas de Freguesia, e que constituía a sua principal receita. Em síntese, tratava-se de um imposto obrigatório para todos os então chamados chefes de família e cidadãos do sexo masculino a partir dos 18 anos, ainda que solteiros, desde que exercessem qualquer profissão. As mulheres estavam dispensadas de pagar... assim como lhes eram recusados inúmeros direitos, entre eles, por exemplo, o de votar. Inicialmente, o imposto pôde ser pago, não em dinheiro, mas com trabalho, e por isso ser conhecido por "prestação de trabalho". O cidadão que optasse pelo não pagamento apresentava-se ao serviço da Junta para o "trabalho braçal", dois dias no ano, exercendo as tarefas que lhe fossem destinadas; os lavradores que possuíssem animais de trabalho apresentavam- -se com a sua junta de bois e carro nos mesmos dois dias. Os contribuintes dispunham ainda da possibilidade de pagarem a quem os substituísse nestas suas obrigações. E assim se construíram tantos e tantos caminhos das nossas aldeias... No ano de 1900, a que se refere aquela matriz, já o pagamento era feito em dinheiro: 160 réis por cada dia de trabalho braçal, 600 por trabalho de carro. No primeiro caso cada cidadão pagava 320 réis por ano, no segundo 1200. A "Matriz da colecta" de 1900 da Junta de Paróquia de Santa Maria de Ul, e de acordo com o impresso superiormente aprovado, apresenta elementos interessantíssimos para o estudo da sociedade ulense de há um século: os nomes dos contribuintes, a profissão, a morada e a idade... tudo escrito com a caligrafia primorosa do secretário José Baptista da Silva Terra, um sacristão que os menos jovens recordam ainda, iniciador da dinastia de colaboradores do pároco que se mantém na linha directa da sua numerosa descendência. Um manancial de preciosas informações para os estudiosos que saibam e queiram embrenhar-se num trabalho mais profundo. De acordo com este bem cuidado manuscrito, a freguesia de Santa Maria de Ul albergava uma população activa de 292 cidadãos do sexo masculino, assim distribuídos pelos seus vinte e sete lugares, seguindo pela ordem decrescente: Adães - 47; Serro - 32; Sobral - 29; Avenal - 28; Ouriçosa - 23; Porto de Vacas - 16; Lousas - 14; Outeiro do Moinho - 13; Trás-das-Pedras - 12; Fonte e Crasto - 9 cada; Salgueirinha - 8; Avelão - 7; Baixa e Devesa - 6 cada; Sobalo e Troviscai - 5 cada; Souto - 4; Rua Direita, Baixinho e Pereiro - 3 cada; Pinheiral, Norinhas, Cruz e Igreja - 2 cada; Aido do Carvalho e Ponte do Cavalar - 1 cada. Conclui-se que, dos 292 pagantes, 105 residiam na parte de além - rio e 187 no aquém – rio. Vejamos agora - particularidade curiosíssima! - a distribuição pelas vinte e seis profissões, seguindo igualmente a ordem decrescente: lavrador - 107; jornaleiro - 39; negociante - 23; pedreiro - 21; moleiro - 20; carpinteiro e padeiro - 13 de cada; almocreve - 11; canastreiro - 10; alfaiate - 5; capitalista, serrador, sapateiro, mineiro, barbeiro e vendeiro - 3 de cada; proprietários havia dois e outros tantos sacerdotes, que aparecem referidos como levitas; as profissões de castrador, trolha, cabouqueiro, canteiro, professor, envernizador, sacristão e caseiro, estavam representadas por um elemento de cada. (Ao leitor menos atento recordarei que este número de apenas treze padeiros mostra-se profundamente enganoso, pois que, na realidade, seria incomparavelmente superior: tratava-se de uma profissão exercida muito principalmente por mulheres, que, como atrás fica referido, não se incluíam entre os contribuintes). Como tudo se transformou! Pensemos, por exemplo, nas profissões que desapareceram. Dos 107 lavradores, quantos ficaram? Talvez que apenas a dolorosíssima recordação de campinas abandonadas, votadas ao mais completo abandono, cobertas de mato e silvas, absolutamente impenetráveis. E das oitenta e duas juntas de bois então existentes, restará uma única para mostrar ao turista? Talvez não. Para terminar, apenas mais um apontamento: o rendimento total da Junta de Paróquia de Santa Maria de Ul, nesse ano de 1900, foi de 140.480$000 réis: 98.400$000 réis provenientes do imposto dos carros de bois e 42.080$000 réis do trabalho braçal.

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