10 Sep 2026
Saudável(mente) com a Dr.ª Fanny Martins
> Fanny Martins
O poder dos pequenos passos
Todos nós já definimos grandes objetivos. Mudar de vida. Perder peso. Encontrar um novo trabalho. Fazer um curso.
No entanto, é curioso observar que, muitas vezes, não desistimos porque o objetivo é impossível. Desistimos porque olhamos para ele como um todo.
Imagine alguém que decide fazer uma caminhada de mais de cem quilómetros. Se, a cada manhã, pensar apenas na distância total que ainda falta percorrer, é natural que o caminho pareça esmagador. Mas se dividir esse percurso em etapas diárias, concentrando-se apenas nos quilómetros daquele dia, tudo muda. O destino continua a ser o mesmo, mas o cérebro deixa de sentir uma montanha impossível de escalar e passa a reconhecer um desafio alcançável.
Não é apenas uma questão de atitude. É neurociência.
O nosso cérebro não foi concebido para viver constantemente focado em objetivos demasiado distantes. Quando a meta parece enorme, interpreta-a como um desafio excessivo, aumentando a perceção de esforço, de incerteza e, muitas vezes, a vontade de desistir antes mesmo de começar.
Mas acontece algo extraordinário quando dividimos um grande objetivo em pequenas etapas. Cada passo concluído, cada conquista alcançada, por mais simples que pareça, ativa os circuitos de recompensa do cérebro através da libertação de dopamina. Hoje sabemos que este neurotransmissor não está apenas relacionado com a sensação de prazer. Está, sobretudo, ligado à motivação, à aprendizagem e à vontade de continuar.
A ciência confirma esta ideia. Teresa Amabile, professora da Harvard Business School, demonstrou, através do denominado Progress Principle, que aquilo que mais alimenta a motivação humana não é o sucesso final, mas a perceção de progresso. Sentirmos que avançámos, ainda que apenas um pouco, aumenta significativamente o nosso bem-estar, a confiança e a persistência.
Talvez seja por isso que tantas pessoas abandonam os seus projetos, as resoluções de Ano Novo ou a decisão de cuidar da sua saúde física e emocional. Não porque lhes falte capacidade, mas porque olham apenas para o destino e esquecem-se de estruturar e celebrar as etapas do caminho.
Na verdade, a vida raramente muda de um dia para o outro. É construída através de pequenas escolhas repetidas com consistência. Cinco minutos de silêncio. Uma caminhada. Um pedido de ajuda. Um hábito novo. Uma conversa difícil que finalmente acontece. Gestos aparentemente pequenos, mas que, repetidos ao longo do tempo, transformam profundamente quem somos.
Vivemos numa sociedade que valoriza os grandes resultados. Mas o cérebro funciona de outra forma. Alimenta-se de progresso. Precisa de sentir que é capaz. Que conseguiu. Que vale a pena continuar.
Talvez devêssemos ser mais gentis connosco quando nos propomos a um novo objetivo ou à redefinição de um antigo. Em vez de perguntarmos “Quanto falta para chegar?”, talvez a pergunta mais importante seja: “Qual é o próximo passo que posso dar hoje?”
Porque as grandes transformações nunca acontecem de uma só vez. Acontecem um pequeno passo de cada vez. E, muitas vezes, é precisamente esse pequeno passo que nos leva mais longe do que alguma vez imaginámos.
* Especialista em Trauma e Saúde Emocional. Terapeuta formada em Hipnose Clínica para crianças, adolescentes e adultos. Autora do método de saúde emocional A.S.E.S. Mais informações em www.asdeser.pt.