2 Sep 2024
> Ricardo Bastos
Hoje o assunto é sério, pelo menos mais sério que a maioria das convicções que vos tento passar. Em tudo o que escrevo tento transmitir valores, tento ser positivo, tento contribuir de forma construtiva para a nossa vida em Comunidade. Tento muito mais fazer parte da solução do que parte do problema.
Muitas são as pessoas necessitadas de cuidados especiais: são idosos, pessoas portadoras de deficiências, pessoas com vários tipos de vícios e dependências, pessoas doentes, pessoas sozinhas...
Muito facilmente apontamos o dedo e os argumentos a quem tem obrigação de cuidar dessas pessoas. Dizemos que hoje não há valores e que ninguém quer cuidar daqueles que deram tudo, ou não, por eles. É verdade. Nos hospitais existem imensas pessoas completamente abandonadas. Ainda há não muito tempo no nosso Centro Hospitalar estavam 65 (sessenta e cinco) pessoas nestas condições. Esse abandono não tem uma causa-padrão. Tantas são as razões e variam muito de situação para situação.
Muita gente gostava de cuidar dos seus familiares e amigos com outras condições mas não tinham como o fazer… E, mais uma vez, são muitas as razões. Há mesmo muita gente a querer.
Mas... Também é tão importante, ou mesmo mais importante, que estas pessoas se deixem cuidar.
Pois bem, é aqui precisamente que eu queria chegar. Às pessoas que não se deixam cuidar; pessoas que sofrem e fazem sofrer. Quem as quer cuidar sofre de duas formas: pela
situação em si e por quererem e terem condições mas não as deixarem.
Quem não se deixa cuidar não tem sequer a noção do quanto está a perder e do quanto mal está a fazer a quem quer ser ajuda.
Mais uma vez as razões são muitas: o pudor, o não quererem dar trabalho, o estarem agarrados ao seu cantinho e coisinhas, o acharem que o outro não sabe daquilo ou não tem obrigação, o acharem que é responsabilidade das entidades oficiais, o orgulho e tantas outras…
A vida é um processo e depender dos outros pode vir a ser uma inevitabilidade.
Preparamo-nos para uma eventual situação de dependência é também um processo para o qual nos devemos preparar enquanto não precisamos, ainda...
Mais importante ou tão importante que ser cuidador é deixarmo-nos cuidar. Façamos este processo como parte da vida, como sendo a vida.
Ricardo Bastos, Organizador das ‘Corridas Solidárias’