1 Oct 2026
> Helena Terra
O nascimento dos Estados Unidos e a criação do Bill of Rights marcam a fundação da primeira república moderna baseada numa constituição escrita e na defesa das liberdades individuais contra excessos do Estado. A partir dai, o velho continente habituou-se a ver os Estados Unidos como “farol do mundo” ou “cidade sobre a colina”, destacando a ideia da nação norte-americana como um modelo exemplar de liberdade, democracia e esperança para as demais nações. A era Trump e a nova orientação da política externa americana colocaram a Europa perante uma realidade que durante décadas parecia improvável: a aliança transatlântica já não pode ser dada como adquirida.
Os Estados Unidos continuam a ser um parceiro fundamental da segurança europeia, mas a relação com os aliados passou a ser marcada por uma exigência mais evidente de partilha de responsabilidades. Para a NATO, esta mudança representa um desafio estratégico. Para a União Europeia, é também um momento de decisão: continuar dependente da proteção americana ou acelerar a construção de uma capacidade própria de defesa, sem romper os laços transatlânticos. Mas aquela decisão, além de não ser a única, pode não ser a mais importante. A Europa enfrenta uma combinação perigosa de guerras nas suas fronteiras, incerteza geopolítica, desinformação, populismo galopante, interferência digital, radicalização política e crescente desconfiança nas instituições democráticas.
É neste terreno que a política de Trump deve ser observada pelos europeus: não apenas pelas suas consequências para a NATO ou para a segurança, mas pelo impacto que uma política internacional mais transacional e confrontacional pode ter sobre os valores democráticos do Ocidente. A democracia não desaparece necessariamente através de golpes de Estado. Pode também enfraquecer lentamente, quando a mentira substitui os factos, quando o adversário político passa a ser tratado como inimigo, quando a imprensa é desacreditada e quando as instituições deixam de ser vistas como instrumentos de todos para se transformarem em armas de uns contra os outros.
A Europa tem, por isso, diante de si uma responsabilidade histórica. Reforçar a defesa, sim. Aumentar a autonomia estratégica, também. Mas sem esquecer que a verdadeira segurança de uma sociedade depende igualmente da força das suas instituições, da liberdade, do pluralismo e do Estado de direito.
O futuro da Europa e da NATO será decidido não apenas nos campos de batalha ou nas salas das cimeiras. Será decidido também pela capacidade das democracias de resistirem ao medo, à divisão, à adesão fácil ao populismo e à tentação do autoritarismo.
É talvez esse o maior desafio da nossa geração e, olhando à volta o futuro próximo é incerto. Citando Kant, “avalia-se a inteligência de um indivíduo pela quantidade de incertezas que ele é capaz de suportar.” Temos de ser inteligentes!
* Advogada