Uma rua, uma ideia de cidade

Ana Isabel da Costa e Silva

> Ana Isabel da Costa e Silva

Uma rua diz muito sobre a ideia de cidade que está por detrás dela, ou seja, sobre o que se privilegia, sobre a forma como se entende o espaço público e, em última análise, sobre a cidade que se pretende construir.
A Rua Francisco Abreu e Sousa é, nesse sentido, particularmente esclarecedora. No seu nome aparece rua, mas o seu perfil é composto por duas faixas rodagem para circulação rodoviária, em cada sentido, com separador central, com uma largura que contrasta com o espaço reservado a quem a percorre a pé. Por ser uma rua de acesso à Escola Secundária Ferreira de Castro, poderia, por isso, ser um lugar exemplar de uma outra forma de pensar a mobilidade e o espaço público. Percorrê-la a pé torna isso evidente.
Nos passeios, a calçada encontra-se degradada. Há pedras soltas, outras em falta, abatimentos junto às tampas das infraestruturas, remates mal resolvidos, e vegetação que ultrapassa os limites da propriedade privada e invade, muitas vezes, o passeio. Há, ainda, contentores e outros elementos que ocupam parte do espaço destinado a quem caminha.
Enquanto o espaço destinado ao automóvel é contínuo, legível e generoso, o percurso do peão vai-se adaptando ao que sobra. Se repararmos bem, não é o passeio, o espaço que é de todos, que regula as entradas e os acessos aos espaços privados, mas acontece precisamente o contrário. É o resultado de uma forma de pensar a cidade que, durante décadas, colocou a circulação automóvel no centro do desenho urbano. Entretanto, a sociedade mudou.
Procuramos, hoje, cidades mais caminháveis, com uma mobilidade que favoreça as deslocações a pé, de sustentabilidade, de saúde, de autonomia dos jovens e dos mais velhos. Há, de facto, uma necessidade de reduzir a dependência do automóvel e de criar condições para que outras formas de mobilidade sejam realmente possíveis. Mas não basta mudar o discurso se o desenho da cidade permanece o mesmo. Uma rua que conduz a uma escola secundária seria um lugar essencial para ensaiar, na prática, essa mudança.
Seria possível imaginar aqui um percurso ciclável seguro, passeios confortáveis, atravessamentos desenhados para garantir segurança a quem caminha, árvores que proporcionassem sombra e frescura nos dias mais quentes e uma relação mais equilibrada entre quem anda a pé, de bicicleta, de automóvel ou de transporte público. A cidade também educa através do seu desenho.
É por isso que a Rua Francisco Abreu e Sousa me interessa enquanto exemplo. Não porque seja um caso isolado, mas precisamente porque não o é. Nela reconhecemos uma forma de atuar que se repete em outros lugares de Oliveira de Azeméis. E isso leva-nos a uma questão maior.
Nos últimos anos, o crescimento da população tem surgido muitas vezes como fator para medir o sucesso de um território. É importante que Oliveira de Azeméis consiga fixar pessoas e atrair novos habitantes. A qualidade de uma cidade não está apenas no número de pessoas que consegue atrair, mas naquilo que essas pessoas encontram quando chegam e naquilo que a cidade lhes permite acrescentar.
Falar sobre uma rua pode parecer uma coisa pequena perante questões desta dimensão. Mas talvez seja precisamente no desenho de uma rua que essas intenções deixam de ser abstratas e se tornam visíveis.
A Rua Francisco Abreu e Sousa mostra-nos uma determinada ideia de cidade. Uma cidade pode crescer em número de habitantes, mas é na qualidade dos lugares onde essas pessoas vivem, caminham e se encontram que esse crescimento ganha verdadeiro sentido.

* Arquiteta e Docente universitária
 

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