Bruno Aragão*
No mês passado a autarquia foi condenada a pagar mais de duzentos mil euros, em duas novas condenações, por processos anteriores a 2017. Estes processos juntam-se, nestes oito anos, a um conjunto de outros que elevam a vários milhões as condenações e indemnizações aplicadas à autarquia.
Em qualquer atividade há litígios e desses litígios resultam decisões nem sempre favoráveis. Em si, essa verdade é insofismável, mas sem mais informação não permite juízos. Há decisões que se tomam, entendendo-se que é a melhor decisão, e que, por diferentes motivos, geram litígio e decisões que podem ser penalizadoras, mas incontornáveis por serem consequências desses mesmos litígios. Não é destes casos que falo. Falo das decisões incompreensíveis.
Não costumamos fazer muito alarido com isto e a própria comunicação social não lhe dá particular importância, mas estes dados suscitam uma reflexão a que me sujeito muitas vezes. Qual é o momento em que devemos deixar de falar de passado?
Talvez tenha encontrado a resposta a conversar com uma pessoa que me abordou um dia destes, a propósito das obras de requalificação da antiga estrada nacional, que decorre entre o Intermarché e o nó de acesso à variante para Estarreja, em Travanca. Nessa conversa, mostrava-me a pessoa o impacto das obras, para quem precisa de utilizar aquela estrada. Não há como o negar. Nos meses em que decorre uma empreitada com obras profundas, o transtorno na vida das pessoas é muito grande. Nessa conversa, explicava eu, dando razão à pessoa, que a obra tinha um atraso de quase 35 anos, quando a estrada passou a municipal, depois da construção do IC2, e o município recebeu o pacote financeiro para a sua requalificação, que nunca aconteceu.
E é aqui que está a tal resposta. Devemos deixar de falar do passado quando ele já não pesar nas decisões que temos de tomar no presente. Se hoje pagamos mais de 200 mil euros em condenações ou se requalificamos uma via importante quase 35 anos depois, estamos a falar do presente ou do passado? Ambas, porque são indissociáveis e têm influência nas decisões que podemos tomar.
* Presidente da Comissão Política da Concelhia do Partido Socialista