18 Jun 2026
> Ana Isabel da Costa e Silva
Nos últimos anos, o debate sobre o centro da cidade de Oliveira de Azeméis tem estado concentrado, sobretudo, na necessidade de atrair mais habitação, mais investimento e mais construção. Embora sejam objetivos legítimos para a vitalidade económica da cidade, nem sempre a sua concretização torna uma cidade mais vivível.
Talvez a questão não resida no número de residentes que conseguimos atrair através da construção de novos edifícios. Talvez a questão esteja em perceber se esses edifícios darão aos habitantes mais razões para caminhar pela cidade. Porque uma cidade não se mede apenas pelo número de residentes, mas também pelo tempo que as pessoas escolhem passar nos seus espaços públicos.
Uma cidade não se constrói apenas através da ocupação dos lotes disponíveis. Vejamos o que está a acontecer em Oliveira de Azeméis, onde a construção entrou em força no centro urbano. Na entrada da cidade, no remate da Rua Dr. António Joaquim de Freitas, está a ser construído um edifício com vários andares. Após a rotunda, construiu-se um McDonald’s. Na Rua Manuel Alves Soares, no antigo Centro de Camionagem, surgirá também um novo edifício.
Só nesta parte da cidade, em terrenos que marcam uma das suas principais entradas, não houve a preocupação em garantir zonas arborizadas e espaços onde as pessoas possam deixar o seu carro de forma gratuita ou pelo menos a um preço mais acessível para quem trabalha na cidade. Neste exemplo, não se verificou uma estratégia para criar espaços verdes, percursos pedonais confortáveis ou minimizar conflitos de trânsito.
Uma cidade pode ser bonita, eficiente e moderna. Pode investir em soluções tecnologicamente avançadas, enterrar contentores de resíduos sob os passeios e renovar equipamentos urbanos. No entanto, nenhuma destas qualidades garante que seja verdadeiramente vivida pelos seus habitantes. A experiência urbana demonstra que os cidadãos não se relacionam com a cidade apenas pela sua funcionalidade. Relacionam-se através dos percursos que escolhem fazer, dos locais onde permanecem, dos encontros que acontecem de forma inesperada e das memórias que associam a determinados espaços. É precisamente aí que reside a diferença entre utilizar a cidade e viver a cidade.
Se o debate sobre a cidade evoluiu da preocupação com a eficiência para o cuidado com a qualidade do espaço público, a sustentabilidade e a imagem urbana, atualmente, porém, torna-se urgente colocar uma questão essencial: estaremos a construir cidades capazes de despertar vontade de serem percorridas?
Porque uma cidade pode funcionar sem ser verdadeiramente vivida. Pode responder às necessidades quotidianas dos seus habitantes e, ao mesmo tempo, deixar de fazer parte das suas rotinas afetivas.
* Arquiteta e docente universitária