17 Sep 2026
> Ana Isabel da Costa e Silva
O lugar e o tempo
O escritor norte-americano Wendell Berry referiu que só conseguimos cuidar verdadeiramente daquilo que conhecemos. Esta ideia relaciona o cuidado com o conhecimento e, sobretudo, com o tempo necessário para que esse conhecimento se construa. Ao cuidarmos, criamos laços. Com os vizinhos, com quem partilhamos o quotidiano, mas também com os lugares onde vivemos.
Durante muito tempo, conhecer o lugar fazia parte da vida diária. Conhecíamos as casas, as árvores, os muros, as pessoas que encontrávamos, os caminhos que fazíamos todos os dias. Sabíamos por onde passar, onde atravessar, que rua ou caminho permitia chegar mais depressa a casa. Conhecíamos também pequenos percursos que não estavam assinalados em lado nenhum. Um atalho entre duas ruas, uma passagem entre campos, muitas vezes cultivados de milho. Percursos que, de tanto os usarmos, passavam a fazer parte da forma como entendíamos aquele lugar. Lembro-me que antes da construção do Itinerário Complementar IC2, era muito mais fácil chegar ao Parque da Lá-Salette. Muitas vezes, os atalhos eram conhecidos apenas por quem ali vivia e, talvez por isso, tinham uma importância difícil de explicar a quem não os conhecia.
Por essa razão, algumas transformações têm consequências maiores do que aparentam. Uma rua é cortada. Uma árvore que sempre esteve num determinado lugar é abatida. Uma estrada nova atravessa um território e elimina um percurso antigo. Para quem olha para um desenho técnico, pode parecer apenas uma alteração de circulação necessária para dar lugar a uma nova infraestrutura. Mas para quem vive aquele lugar, é sobretudo uma relação que se interrompe.
Penso, por exemplo, em ruas que durante anos fizeram parte de um percurso habitual, como a Rua dos Bombeiros, e que, de um momento para o outro, deixam de ter continuidade. Ou em árvores que marcavam uma rua ou uma esquina e que desaparecem sem que se perceba porquê. Não é necessário que sejam árvores classificadas ou que aquele percurso tenha um valor excecional. A sua importância pode estar simplesmente no facto de fazerem parte da experiência quotidiana daquele lugar. Quem vive um lugar acumula este tipo de conhecimento ao longo do tempo. Um conhecimento feito de repetição, de proximidade e de experiência.
As cidades precisam, evidentemente, de mudar. Novas estradas podem resolver problemas, novos edifícios são necessários e o espaço público tem de se adaptar a outras necessidades. Não se trata, por isso, de defender que tudo deve permanecer como está. Mas entre manter tudo e transformar sem conhecer verdadeiramente, sem ouvir quem vive os lugares, existe um campo muito amplo de decisão.
Sobretudo nas cidades mais pequenas, onde a relação com os lugares continua a ser muito próxima, talvez seja importante perceber melhor o que já existe antes de intervir. Não apenas os edifícios, as vias ou os limites das propriedades, mas também a forma como aquele território é efetivamente usado.
Porque a transformação de uma cidade não acontece apenas quando se constrói alguma coisa nova. Acontece também quando se altera um percurso, quando se elimina uma ligação, quando desaparece uma árvore ou quando uma rua deixa de cumprir a função que teve durante muitos anos.
* Arquiteta e Docente universitária